Bilderberg, o filme

Daniel Estulin grava seu filme sobre o Clube Bilderberg

 

Ao contrário dos argumentos tradicionais, baseados em pressupostos jurídicos e político-eleitorais, o atual predomínio de políticas “neoliberais” vão muito do estabelecimento de um Consenso de Washington, dos marcos legais que permitiram a proliferação de paraísos fiscais, e das eleições de Thatcher, Reagan e Mitterrand na década de 1980. Foi um marco a chamada “crise do petróleo” na década anterior, uma crise econômica controlada que, de um lado, iniciou a hegemonia do dólar no mundo com os petrodólares (e a concomitante desvinculação dessa moeda ao padrão ouro por Nixon, base do tratado de Bretton Woods), e de outro (por causa do aumento artificial do preço do petróleo e a consequente ausências de divisas norte-americanas para dar conta do incremento do dispêndio com o combustível) criou o “sistema da dívida” que até hoje aferra os países latino-americanos, que pegaram empréstimos a juros baixos e logo após tiveram que lidar com juros extorsivos.

 Mas o fundamental foi o debate dentro dos círculos da elite mundial depois do fim da Segunda Guerra. O Império Britânico, vendo que não poderia continuar sendo um império territorial, paulatinamente passou a exercer sua soberania através dos instrumentos financeiros. Forma-se, ainda na década de 1950, a aliança anglo-americana, que conta de uma lado com a City de Londres e Wall Street e, de outro, com a OTAN. Como diz o autor do livro best-seller, Daniel Estulin, Rockefeller é uma metáfora do poder. Na mesa dos poderosos, sua família no máximo serviria o café. Igualmente para o Clube Bilderberg. Bilderberg é um signo, uma indicação para além dos marcos tradicionais, de onde se sedia e como foi desenvolvida a atual hegemonia militar e financeira. Falando dele, abre-se espaço para debates que, infelizmente, não se encontram ainda em praça pública.

 

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O Rambo brasileiro

O cineasta que mora em Miami por “motivos profissionais” e prega o voto nulo por ausência de culhão para o enfrentamento político. Quem anos depois iria endeusar como o capitão Nascimento (quase um “nome-metáfora”) o capitão do mato Sérgio Moro, e fazer de mero bandido o Escobar: combate-se a desigualdade com a luta contra o crime. Esse o mote de nossos liberais, da suposta classe-média, em suma, de quem deu o golpe. Não se combate a desigualdade na luta contra  pobreza. Morar em Miami… O lugar que virou, no governo Lula, o Paraguai da classe ascendente – muito mais exigente.

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O Mais Médicos e os dilemas para uma Medicina Social

No último livro do Roberto Machado, ele se dá a liberdade de finalmente não ser o teórico ou o professor. Diz que finalmente pôde exercitar a prática literária, algo que sempre deixou de lado por causa dos estudos filosóficos. Não tinha tempo para a literatura. Aposentado, não escreveu um livro de ficção, mas de histórias, de relatos da convivência pessoal que teve com Michel Foucault nas suas passagens aqui pelo Brasil, onde Roberto parecia ser seu guia e também seu estudante mais aplicado. Num documentário recente que assisti sobre o Mais Médicos, programa marcado para morrer em breve (talvez por volta de novembro os médicos cubanos comecem a ir embora). É porque quando estavam na Bahia, foram visitar o Pelourinho. E lá Foucault viu a realidade da prostituição, da pobreza humana, dos esgotos a céu aberto. E aí ele exclamou (palavras minhas do que ouvi da palestra do professor, ou seja, não literais): “Mas Roberto, tudo bem que escrevi sobre a medicina social, fiz uma crítica forte a respeito, mas isso aqui é indecente”.

O curioso do documentário do Mais médicos são os questionamentos sobre como tratar sem descuidar, sem, por medidas de força (nem que seja a força moral da autoridade médica), populações com práticas sociais e médicas totalmente diferentes? Onde, por exemplo, a religião assume um papel ainda preponderante, e que não é por um suposto saber científico, por mais “suave” que seja, irão conseguir atingir.  Todo um campo de estudo pode ser aberto caso olhemos para essas histórias.

 

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Foucault, Leiris e os canhões: sobre o fazer literário atual

Michel Leiris por Francis Bacon, 1973.

Como escrever hoje? Somos “pequenos Hans”, Chéri-Bibi em busca de uma “boa identificação”? Eis alguém como eu! Eis alguém como eu! Em meio às redes sociais, a crítica que Foucault faz da Aufklärung kantiana, e A regra do jogo, da escrita de si, de Michel Leiris, podem nos fornecer importantes subsídios.

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