ANTROPOLOGIAS FOUCAULTIANAS I: “Libertar-se do ‘velho chinês’ de Königsberg”

Michel Foucault e Benedito Nunes na praia do Marahú – Belém, 1970. Será que ali discutiam Kant? Ou foi por inpiração do “velho chinês” que Foucault foi parar na praia do Marahu?

ANTROPOLOGIAS FOUCAULTIANAS I
Por Rogério Mattos: rogerio_mattos@hotmail.com
Essa série, Antropologias foucaultianas, se destina à discussão depossíveis leituras foucaultianas, desde a tradição filosófica até a história da arte, da historiografia e, mesmo, da própria história das leituras que se fizeram de Foucault, com destaque para o “Foucault leitor de Foucault”, como nomeou Roger Chartier. Nessa primeira parte, utilizando de fontes primárias da época da auge da chamada “ideologia alemã”, questionaremos: como se libertar do “velho chinês” de Königsberg, a suposta bela alma, Kant?

Libertar-se do ‘velho chinês’ de Königsberg

Escrevo essas palavras para levantar, por parte dos meus leitores, indagações sobre leituras que “casam” com os conceitos de Foucault. Por exemplo, escuto muito falar de Peter Sloterdijk, a “Crítica da razão cínica”, mas ainda assim não me empolgo para sua leitura, por ter me parecido um autor muito influenciado por Heidegger, Hegel, etc., (o que talvez barbaramente podemos chamar de “ideologia alemã”, ou seja, o que de pior a Alemanha produziu em termos de filosofia, a começar por Kant). Claro que não falo de Nietzsche, que é alguém que pensa “de fora” (como Foucault fala sobre Blanchot), e que não é muito diferente da História da religião e da filosofia na Alemanha, do excelente Heinrich Heine que, em sua excelente História da religião e da filosofia na Alemanha, diz: “Afastem-se, espíritos! Pois falo agora de um homem cujo próprio nome carrega consigo um poder de exorcismo; falo de Immanuel Kant. Dizem que espíritos da noite se alarmam com a visão da espada de um executor. – Com que terror eles não devem ter ficado quando a Crítica da Razão Pura foi colocada diante deles. Esse livro é a espada com que o deísmo foi executado na Alemanha1”. Depois disso, faço um breve recorte e anotações das palavras de Heine, quase um exilado na França (escreve para periódicos franceses na língua para ele estrangeira), um crítico feroz da falta de liberdade que assolou o país desde Kant, pelo menos, e que chega aos cumes na época de Hegel (que adorou esse estado), e nos sofrimentos, por exemplo, do gênio da matemática, Carl Gauss, na publicação de suas descobertas e escritos…

A Crítica da Razão Pura, como eu disse, é a principal obra de Kant, ao passo que seus outros escritos podem ser vistos como mais ou menos dispensáveis ou, no máximo, como anotações. A importância social de sua principal obra irá se tornar aparente no que se segue.

Os filósofos antes de Kant pensaram, isso é fato, sobre a origem de nosso conhecimento e, como já demonstramos, seguiram duas trajetórias distintas, dependendo de se aceitavam ideias a priori ou a posteriori. Entretanto, houve menos pensamento a respeito da faculdade de conhecimento em si, sobre sua extensão ou sobre seus limites. Essa, então, tornou-se a tarefa de Kant: ele submeteu nossa faculdade de conhecimento a uma investigação rigorosa; examinou todas as profundezas dessa faculdade e estabeleceu seus limites. A bem da verdade, descobriu que não somos capazes de saber absolutamente nada a respeito de um grande número de temas que antes pensávamos conhecer de maneira mais profunda. Isso foi extremamente cansativo. Mas é inegável que tenha sido útil saber sobre quais das coisas que existem não podemos ter conhecimento algum. É tão vantajoso o fato de nos prevenirem a respeito dos caminhos inúteis como o de nos mostrarem o caminho correto. Kant nos provou que nada sabemos a respeito das coisas do modo como elas são em si mesmas; em vez disso, nós as conhecemos apenas na extensão em que elas são refletidas em nossa mente. Sendo assim, somos exatamente como os prisioneiros de que Platão fala de modo tão sombrio no sétimo livro de sua República: aqueles infelizes, amarrados pela garganta e pelos pés para não conseguirem virar suas cabeças, sentados em uma prisão com uma abertura no alto, de onde recebem uma certa luz. Essa luz, porém, vem de um fogo que queima atrás e em cima deles, e que, além disso, está separado dlees por um prqueno muro. Pessoas que carregavam todo tipo de estátuas e imagens de madeira e pedra andam ao longo desse muro, conversando uns com os outros . Os pobres prisioneiros não conseguem ver nada dessas pessoas, que não são tão altas quanto o muro. Eles veem apenas as sombras das estátuas que as pessoas carregam, que ficam visiveis acima do muro, e essas sombras andam para cá e para lá na parede à frente deles. Eles acreditam que essas sombras são coisas reais e, enganados pelo eco de sua prisão, acreditam que são as sombras que conversam umas com as outras.

A filosofia antes do aparecimento de Kant, vinha farejando coisas por todo o lado, coletando e classificando suas características. Com Kant, isso teve um fim, pois ele conduziu uma investigação da mente humana e examinou o que era revelado por ela. Como consequência, ele comparou sua filosofia, de maneira justíssima, ao método de Copérnico. Antes, quando se acreditava que o mundo se mantinha imóvel e se pressupunha que o Sol girava em torno dele, as medições astronômicas não eram especialmente congruentes. Copérnico tornou o Sol imóvel e fez a Terra orbitar em torno dele; e, olhe, agora tudo se resolvia de maneira esplêndida. Antes, a razão, como o Sol, orbitava o mundo das aparências e buscava iluminá-lo; Kant, porém, manteve a razão, o Sol, imóvel e fez o mundo das aparências orbitar a seu redor e se iluminar sempre que entrasse em seu domínio.2


Isso, na verdade, porde ser chamada de uma piada culta. A filosofia de Kant é a luz do sol, foco imóvel que ilumina a Terra, ou seja, o mundo das aparências. A única coisa que existe de verdadeira é essa luz da razão, a luz do prórpio Kant, em suma. Por isso, na filosofia kantiana, habitamos a caverna de Platão: “Só podemos conhecer algo sobre as coisas como fenômenos; não podemos saber nada delas como coisas em si. Estas são simplesmente problemáticas; não podemos dizer ‘elas existem’, tampouco ‘elas não existem’. Na verdade, a expressão ‘coisa em si’ é diferenciada da palavra ‘fenômeno’ apenas para que possamos falar de coisas porquanto nos sejam conhecíveis, sem que nosso juízo esbarre nas que são incognoscíveis3”. Não é por outro motivo que os cálculos de Kepler sobre a órbita solar foram os únicos planamente satisfatórios para a época. Copérnico, como tantos outros, vendo os astros se moverem de modo circular, poderia colocar até a lua como centro do sistema, que ele não seria alterado. Logo,

Para Kant, Deus é uma coisa em si. Segundo sua argumentação, o ser ideal e transcedente que, até então, chamamos Deus, não é nada além de ficção. Ele surgiu de uma ilusão natural. Na verdade, Kant mostra que não podemos saber nada dessa coisa em si, Deus; além disso, qualquer prova futura de sua existência é impossível. Somos forçados a escrever as palavras de Dante, “Abandonai toda a esperança!”, sobre essa seção de Crítica da Razão Pura4.

Kant é comparado por Heine a Robespierre. Este, um assassino, aparentemente nada tem a ver com um pacato professor universitário, mais pontual que o próprio relógio da província onde morava (diziam que o relógio era corrigido de acordo com as horas que Kant passava na rua – de fato, era ele quem estava sempre certo). Mas, como grande iconoclasta (“grande destruidor na esfera do pensamento”), teve suas similaridades – e algumas diferenças – com o líder do Terror.

No entanto, se Immanuel Kant, o grande destruidor na esfera do pensamento, ultrapassa de longe Maximilien Robespierre no quesito terrorismo, ambos, por outro lado, tinham certas similaridades, que nos convidam a compará-los. Em primeiro lugar, encontramos nos dois a mesma honestidade inflexível, mordaz, prosaica e objetiva. Em segundo, vemos em ambos a mesma aptidão para a desconfiança, exceto pelo fato de o primeiro aplicá-la sobre o pensamento e chamá-la de criticismo, ao passo que o segundo a utiliza contra as pessoas e a chama de virtude republicana. Ainda assim, ambos revelam no mais elevado grau a espécie do petit-burgeois – a natureza os havia destinado a medir café e açúcar, mas o destino os forçou a pesar outras coisas, e pôs um Deus e um Rei, respectivamente, em suas escalas…
E eles encontraram seu verdadeiro peso!5


Algo relativamente marginal na obra de Foucault, a preocupação com a filosofia aristotélica, aparece de maneira bem desenvolvida em sua genealogia no primeiro ano de curso no Collège de France, no volume entitulado Aulas sobre a vontade de saber. Fazemos alusão ao curso pela alusão algo rara entre Aristóteles e Nietzsche. Falemos do primeiro antes de chegarmos ao outro.

Texto muito conhecido, muito banal e que a localização nas linhas iniciais da Metafísica parece manter na margem da obra: “Todos os homens têm, por naureza, o desejo de conhecer; o prazer causado pelas sensações é prova disso, pois, além de sua utilidade, elas nos agradam por si mesmas e, mais que todas as outras, as sensações visuais”6.


Aqui começam a se estabelecer as premissas do contentamento do homem sábio. O saber encarado como algo se não totalmente corporal, pelo menos com origem no corpo, nas sensações. Seu pendor intelectual se ampara nas sensações visuais, mas de um modo tal que “imediatamente o corpo, o desejo são elididos; o movimento que no próprio nível raso da sensação leva rumo ao grande conhecimento sereno e incorporal das causas, esse movimento já é, em si mesmo, vontade obscura de alcançar essa sabedoria, esse movimento7”. Logo, conhecimento que nasce de um instinto, de uma motivação puramente corporal, cujo objetivo é o gozo (mas “sublimado”, intelectualizado) e que, assim, solapa o próprio corpo e seus desejos no cadafalso da comtemplação e das puras teorias. “Sua função é assegurar também que, apesar da aparência, o desejo não é nem anterior nem exterior ao conhecimento, visto que um conhecimento sem desejo, um conhecimento feliz e de pura contemplação já é, em si mesmo, a causa desse desejo de conhecer que tremula nos simples contentamento da sensação8”. Por isso, “o escândalo que há em recolocar a vontade e o desejo fora da consciência, como fizeram Nietzsche ou Freud9”.

Nietzsche vai colocar toda essa verdade apoiada na consciência, já presente na forma mais elementar da sensação – o contentamento com si mesmo – como algo ilusório. “A vontade é aquilo que diz com voz dupla e superposta: quero tanto a verdade que não quero conhecer e quero conhecer até o ponto e até um limite tal que quero que não haja mais verdade. A vontade de poder é o ponto de ruptura em que verdade e conhecimento se desatam e se destroçam mutuamente”. Palavras fundamentais. Toda vontade de saber não é a busca pelo contentamento com um teoria pura. Vontade de saber é, antes, vontade de poder. Para tanto, a verdade deve ser irremediavelmente separada do conhecimento. A verdade não opera nos cinco sentidos do animal aristotélico. Por isso a vontade de poder é um ponto de ruptura, que opera tanto “o grande nojo do homem” de Zaratustra quando este deve voltar à planície, como também a sensação de escalar alturas imensas, fazendo cobrir suas orelhas de chumbo: quanto mais ao alto, mais próximo a queda trágica. Vertigens.
Uma nota curiosa desse texto de Foucault, relativamente raro, sobre Aristóteles (e que tenta situá-lo na história da filosofia, com Platão, sofistas, mas também com o saber dos poetas antigos como dos trágicos – trilhas de Os mestres da verdade da Grécia arcaica), é que coloca-o como uma exceção à filosofia antiga. Como exceção, seus textos são os mais próximos dos modernos: o sujeito do puro conhecimento, como em Descartes, como no próprio Kant, refazem, na modernidade, a diferença que constituiu Aristóteles para os outros gregos.
Conclusão:

Deleuze foi bem sábio quando disse (em Nietzsche e a filosofia) que se houve alguém que Nietzsche lutou contra durante toda sua vida, ainda que sejam muito poucas as referências explícitas e qualquer de seus textos, esse alguém foi Hegel. Não poderia o filósofo da afirmação se conformar com o da negação. E é esse mesmo espírito anti-negacionista, afirmativo da vida, que faz Heine criticar de maneira até satírica, humorística, os sábios de seu tempo, de Kant a Hegel. A Alemanha teve o dom de fazer renascer a filosofia (tem uma coisa muito socrática, até mesmo “anti-sofística” e anti-aristotélica nos escritos de Lutero, que quase podemos colocá-lo – além de certos escrúpulos religiosos – como alguém que iniciou esse processo, mas que teve um desenvolvimento notável com Leibniz e, a partir desse, com toda uma escola que veio a fundar a física moderna, com Gauss, Riemann, Abel, até os tempos de Planck e Einstein), mas que também foi sua tumba, onde se enterrou, com a suposta “ideologia alemã”, com suas influências britânicas principalmente, o lugar que parecia ter sido criado como uma espécie de nova Grécia. Como disse, ainda, Heine, em seu Poemas dos tempos:

Ribombe o tambor e não tenha medo
E beije a mulher boateira!
Essa é toda a filosofia
É o que dizem de verdade os livros.
Desperte o povo com seu tambor
Ribombe o toque de alvorada com a força da juventude,
Marche adiante e adiante, ribombando seu tambor,
Essa é toda filosofia.
Essa é a filosofia hegeliana,
É o que dizem os livros.
Eu entendi porque sou brulhante,
E porque sei ribombar tambor como ninguém.

Bom, voltando ao tema de se achar boas “leituras foucaultianas”, penso que, ao invés de querer achar um livro pronto, acabado, dá para se desenvolver várias linhas de pesquis, como se vê no “Foucault leitor de Foucault” (artigo do Roger Chartier publicado no livro À beira da falésia), do que, por outro lado, na publicação francesa recente, “Foucault contra Foucault” (Foucault against himself, na publicação em inglês). Devo escrever pra esses dias um texto sobre esse “confronto” aqui no blog.
Do meu ponto de vista, se fosse para dar apenas uma opção (e é o que me pedem e ficamos sempre nessas limitações de tantas referências, mas às vezes tão poucas), o que considero fundamental é a leitura do Mestres da Verdade, do Marcel Detienne, e depois sua releitura do mesmo livro no Os gregos e nós. Ele fala ali do Foucault, faz uma crítica bem contundente, do ponto de vista da antropologia, ao Heidegger, e talvez seja a chave para o que o Foucault chamou nos últimos cursos dele de “aleturgia” ou modelos de veridicção. Se não é uma “chave”, com certeza é uma porta que leva a lugares bem interessantes.
Sobre o cinismo propriamente – esse é um tema definitivamente popular -, gosto muito das leituras do Walter Benjamin feitas pelo Georges Didi-Huberman, numa série de livros, mas principalmente nos 6 volumes (não tão grandes, apenas o último é um pouco maior), de uma série chamada L’oeil de l’histoire. Mas acompanho os livros dele desde que escreveu sobre a Salpetrière e sobre Fra Angelico. Baudelaire, Benjamin e Didi-Huberman, eu considero bastante em relação aos estudos sobre o cinismo, mas também especificamente no que Foucault escreveu sobre a arte moderna, como com Manet ou Magritte.
Tem também alguns livros “de situação”, sobre o contexto intelectual da época de Foucault. Gosto de aconselhar não só o livro do François Disse, a biografia dele sobre o Guattari e o Deleuze, mas como complemento, o From Revolution to Ethics, do Julian Bourg, e o After the Deluge, do Dosse e o Bourg. Sem contar o livro indispensável, o “Foucault”, do Deleuze, que provavelmente todos devem conhecer.
É isso. tem um nexo com a historiografia (principalmente a antropologia histórica, a chamada terceira geração dos Annales), com a história das ciências também (aí entraria o Canguilhem, o Koyré, etc., mas isso eu ainda não tenho muitas leituras), com a própria filosofia – claro – e com uma vertente mais literária, a do Bataille, Blanchot, etc. Grosseiramente, quase, é isso. É porque é um mundo de leituras e fica difícil apontar um ou dois. Seria isso, no caso, o Didi-Huberman e o Marcel Detienne (que passaria pelo Levi-Strauss das Mitológicas). Uma opção, claro (dentre tantas), estritamente pessoal.
Tudo isso deve ser desenvolvido ainda em pelo menos duas publicações futuras. A aguardar.


FONTES
1HEINE, Heinrich. História da religião e da filosofia na Alemanha e outros escritos. São Paulo: Madras, 2010, p. 131.
2Idem, p. 135-6.
3Idem, p. 136.
4Idem, p. 137.
5Idem, p. 132.
6FOUCAULT, Michel. Aulas sobre a vontade de saber. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2014, p. 6.
7Idem, p. 13.
8Idem, p. 14.

9Idem, p. 17.

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