A cultura dos 80 segundo o Matador de Passarinho

Rogério Skylab tem uma trajetória peculiar dentro da música brasileira. Pouco se destaca, além de seus posts no Facebook repletos de audiência (em sua maioria nazistóides, segundo o próprio), sua produção escrita, sua crítica literária e musical, que nos conta bastante sobre a história recente do Brasil, do período em que ganhou maturidade e soube escolher suas referências musicais, como Torquato Neto e a chamada Vanguarda Paulista. Acompanhar seus escritos, seu antigo programa na TV, além de sua atuação nas redes, permite traçar toda uma história do Brasil nas últimas décadas. Do “fino” da literatura e da música, de Dr. Silvana a Jojo Todynho (na companhia de análises de alguém não menos capacitado, o escritor Marcelo Mirisola), toda uma teoria do riso, assim como uma história do Brasil emerge. Foi o que procurei traçar nesse texto.

Passaralho e não Passaredo

Dr. Silvana: “O pessoal [ainda] quer cantar música dos anos 80”. Silêncio.

Um olha para cara do outro como se tivessem se ofendido. Parece que o silêncio foi bem grande a ponto de gerar uma contrariedade nesse sentido.

“Me fala uma coisa, corta Skylab. O primeiro LP de vocês foi Dr. Silvana e Companhia… Vocês tem ideia de quanto vocês venderam?”. O entrevistado desconversa; diz que não tinha como contabilizar o quanto foi vendido por causa de política interna da gravadora. Pelo discurso, não parece que Cícero Pestana está mentindo… A gravadora fez uma separação “técnica” que não dizia a eles quantos discos venderam. A parte moral é que se a gravadora falasse que eles venderam 100 mil cópias, eles exigiriam o status de alguém que alcança esse número de vendas. Isso é um sintoma típico da época e do meio. Sua banda não poderia se igualar ao “top” da gravadora; no caso, Roberto Carlos ou RPM. “Mas vocês ganharam dinheiro com show”, remenda Skylab. Inquestionável. E tudo teria sido torrado em farras (não em drogas, Silvana enfatiza) no Baixo Leblon, no financiamento de comensais que se juntavam para jantar, em táxis especiais que ficavam à espera da festa terminar, etc. “Ela foi dar, mamãe. Foi dar, mamãe”, Skylab canta, em cena destacada… Impossível maior silêncio.

Silêncio novamente na câmera que volta a focar os dois personagens. Ofensa é a única palavra que parece condizer com a cara de Silvana diante da cara de paisagem de Skylab…

Não, nenhuma briga.

“Agora me diga uma coisa”, interrompe novamente Skylab. Sim: interrompe o silêncio que luta por ser o protagonista do enredo.

“Em 1989 vocês lançaram um LP chamado ‘Ataco outra vez’. Na contracapa desse disco existe um texto, que eu não sei se foi você que escreveu ou se foi alguém da banda, que me parece que é um desabafo”. Silêncio? Não, vozerio… Mas Skylab conclui: “um desabafo contra a crítica”. Davam muito valor a crítica social, a crítica política. Coisas do Legião, do próprio RPM (um dos “filés” da gravadora). A indústria fonográfica gostava de “coisas cabeça”. Novo sintoma. Como disse anteriormente, sinal de sinceridade. Mas “Eu fui dar mamãe” também era uma crítica social. Um tapa na cara da hipocrisia. Ele diz que isso era forte na época. Não diria que hoje ainda há resquícios dessa prática por parte dos censores. No caso, a família. Acredito só que a hipocrisia se sofistica. Silvana é certeiro, mesmo dentro de uma quadratura “PLOC”.

Depois, o cinismo da crítica. Suas palavras acertam no ponto a respeito. Mas quanto aos motivos…

Novo silêncio.

Silvana faz uma excelente abordagem geo-histórica: Skylab diz que eles fizeram muito sucesso no interior. Silvana diz que pediu uma vez para tocar o “Fui dar mamãe” numa dessas rádios da metrópole. O DJ, algo como um camarada (que dizem não existir mais), disse que não iria tocar porque não tinha audiência. Ele iria tocar “Taca a mãe pra ver se quica”, ou seja, o que seria uma crônica que relata o que faz alguém xingar uma outra pessoa. Banalidades. Será? O fato é que a mãe não quica, ou seja, estamos ao lado da chamada morte. Surge um impasse ao ouvir a música. E aí?

Comparado a mais alta cultura produzida pelo mainstream hoje, considero sem dúvida alguma Serão Extra uma “música cabeça”. Mais abaixo desenvolvo melhor o tema.

Se existe alguma crítica social além do fumo – algo muito forte – tem que se lembrar da bandeira da emancipação feminina. A moça que “foi dar” o serão extra digita, e quando toca as teclas da máquina de escrever é como se tocasse as teclas que produzem o som que os músicos executam ao fundo. E se foi de fato um serão extra? Isso é um prato cheio para a chamada “história-memória”. Caso se transporte para a atualidade, o cinismo como visto por Guattari e Deleuze no Anti-Édipo é a ferramenta conceitual mais do que adequada.

Deve-se dizer que o foco na protagonista parece um prelúdio do que iria ocorrer em Emmanuelle…

No final do clipe, o patrão aparece como um telespectador da antiga série famosa. Em quem está a perversão? E a mãe “come” ele ao final… Depois um come o outro. Anos 80…

(???)

Será? Ah!, minhas leituras de Boccaccio…

E a Peste Negra grassando.

Por isso Cícero Pestana foi ao Matador de Passarinho. Uma importante entrevista-leitura. Pena dos que se debatem nas infindáveis “leituras fundamentais”, Dante, Homero, Petrarca ou o ridículo Ricardo Lísias

Para voltar ao assunto: aí o DJ da metrópole acabou tocando o “Fui dar mamãe” por ser sucesso no Brasil, ou seja, em suas cidades e não na metrópole. Foi algo “do interior para a capital”, como diz Silvana.

Silêncio…

(esse o silêncio mais espetacular, ao final do vídeo. inexplicável e espetacular. acentua todos os outros, é o que eu diria)

Depois disso tudo, Skylab constata frente a Silvana que sua banda vendeu muito disco, conseguiu muito sucesso e que depois disso você não morre nunca.

Agora sou eu que faço silêncio…

Porra, mas o vídeo acabou!

Segue abaixo:

 

Acidez faz bem

Que coisa boa de analisar!

Agora que li a notícia de que Phil Collins está no Brasil. Putaqueopariu. Especialmente ele, junto com Herbert Viana, Humberto Gessinger e Arnaldo Antunes cagaram em cima dos meus anos oitenta. Saí de circulação em 1986 e só voltei no ano 2000 – entre outras aporrinhações – por causa desses pentelhos, quanto mais a gente reza mais assombração aparece…

 

Mas as palavras de Marcelo Mirisola só podem ser devidamente analisadas se comparadas com o que disse Rogério Skylab:

 

Hoje, ao assistir no canal Curta o filme sobre o Barão Vermelho, me dei conta do quanto os seus integrantes são deslumbrados com o sucesso que tiveram alguns anos atrás. A quantidade de discos vendidos, por exemplo, é um motivo de orgulho, é uma espécie de panaceia, que deverá ser sempre mencionada. E me perguntei se esse fenômeno era exclusivo do Barão. Não é. Essa grande festa dos anos 80, com algum reflexo nas décadas seguintes, foi patrocinada por um senhor que viria a ser acusado de agente da CIA por Glauber Rocha. Foi esse senhor que patrocinou esse clima de deslumbramento em garotos ingênuos e branquinhos da classe média. Esse filme sobre o Barão é muito interessante em vários aspectos, inclusive no que diz respeito a acanhada abertura política dos anos 80.

 

Ele se refere a Harry Stone, produtor de cinema americano e aliado do governo militar que ajudou na substituição dos filmes ácidos, críticos, do cinema nacional, pelas produções hollywoodianas. Esse clima de “grande festa” foi o que fez a banda Dr. Silvana e Cia fazer sucesso nos 80. Se tinha um cunho político, como enfatizou o líder da banda, ainda que diferente de coisas mais “cabeça” como Legião Urbana ou RPM, sua crítica só entrava no circuito por estar dentro desse clima festivo que solapou talvez menos a seriedade do que a acidez de boa parte da produção nacional. Mirisola cita três músicos de sucesso, mas não devemos deixar de pensar o que é esse tom “mais cabeça” do Legião Urbana. Essa banda, como muitas outras, com suas letras de cunho político, servem hoje de refrão reutilizado pelas classes-médias, contra o neomacartismo travestido de “combate à corrupção” que levou ao golpe de Estado e à tentativa de solapar – matar, prender, destruir – toda organização social e suas lideranças com ampla segmentação popular, ou seja, Lula e o Partido dos Trabalhadores. São os supostamente instruídos por essas músicas que batem panela que não compreendem minimante o processo histórico mais amplo que vivemos mundo afora, e que reduzem tudo a termos de “roubalheira”, como no refrão: “O Brasil vai ficar rico, vamos faturar um milhão”…

E isso “é muito interessante em vários aspectos, inclusive no que diz respeito a acanhada abertura política dos anos 80″…

Então Phil Collins, Engenheiros do Havaí, Titãs, Legião e toda essa postura de garotos rebeldes mas conscientes de sua tarefa pública (e política) solaparam, sob o pano de fundo da mais ampla banalidade, todo um movimento artístico que só veio a florescer, e ainda assim não da maneira maciça como se gostaria que fosse (como houve uma multiplicação de movimentos culturais dos anos 50 ao 70), décadas depois. São ainda outsiders, como testificam os casos de Mirisola e Skylab, ambos que participaram dessa virada anos 80-90, e só com muito custo, muito insistência, conseguiram consolidar seus trabalhos, ainda que estejam longe de ser o que se considera comumente como “hegemônicos”. Se os personagens de Dostoiévski são marcados pelo excesso de bílis, pela hipocondria, ou seja, doenças do sistema digestivo e que geram acidez no organismo, existe essa geração que talvez esteja na mesma linha de continuidade de Glauber Rocha (e com certeza de Claudio Assis, um terceiro nome a ser mencionado e colocado ao lado dos dois primeiros), para quem o fenômeno da beleza não é alegre por ser festivo, ainda que a gargalhada seja evidente na produção de qualquer um dos três. Não é uma alegria cor-de-rosa; essa não pode aparecer nem como aparência, como no caso de Silvana. É uma alegria doída, sentida até seus extremos. Por isso fazem gargalhar, estremecer, e não apenas abrir um sorriso largo, algo irônico. Toda ironia tem algo de contido; faz parte desse sentimento uma certa noção de superioridade. A gargalhada pertence ao baixo ventre, assim como a bílis e a “hipocondria” com entendida no século XIX.

Chega-se então a uma terceira noção do que seria o riso frouxo: com uma carga de leveza, em Silvana; com toda carga do baixo ventre nos outros três citados. A terceira:

 

Num futuro muito próximo, tudo q se relacionar com o singular e o talento individual, tudo que expressar o humano e a liberdade em detrimento do coletivo, tudo aquilo que, enfim,não atenda as demandas da coletividade será considerado crime hediondo.
Jojô Toddynho é uma viajante do tempo, e a missão dela, em primeiro lugar, é acabar com a beleza q exclui evidentemente a maioria, e depois preparar os espíritos livres e “fascistas” a chafurdar no lixão coletivo, bem, uma coisa vos digo com toda a sinceramente do meu coraçãozinho atormentado, acho q merecemos.

O riso aparece quando algo penoso se mostra aparente, quando se mostra quando algo até então importante aparece quase como uma mera ilusão. A moça da foto acima expressa esse sentido de descontração, claro que num sentido bem particular. Vou comentar as palavras acima de Marcelo Mirisola, mas ele deve ser visto no contexto do quadro que traço nas duas partes de meu texto. Ela é portadora de um riso de descontração. Não devemos julgar esse atores individuais enquanto tais. Ela provoca o mesmo tipo de riso que Dr. Silvana e Cia com o “Fui dar mamãe”. É um riso simples, saudável. No caso de Silvana, desfazer um cinismo social persistente. No caso de Jojo, o riso serve para libertar as mulheres da ditadura do gosto. Por isso a entronização do feio. Quando esses atores, por questões que o transcendem, passam a agenciar questões individuais, de alcance social limitado, como se fossem questões maiores, chegamos muito próximo ao fascismo hodierno.

Esse fascismo consiste em tornar maiores questões menores. Para falar em termos mais claros, ou seja, não tão simples, tornar questões menores num suposto problema social mais amplo necessita-se de um deslocamento de contexto que destorce a mensagem. Tudo vira festa PLOC, celebração da mediocridade. Em que sentido se celebra essa mediocridade? Quando, como diz Mirisola, demandas da coletividade se sobrepõe ao que é humano e a liberdade. Em termos mais simples, aproxima-se do fascismo como o defendido por mulheres de alta celebridade nos EUA, uma suposta afirmação dos gêneros, dos tipos, das raças, mas deslocada de qualquer consideração sobre o contexto social, econômico, filosófico, político, literário, e tudo o mais. A mídia faz esse agenciamento, e por isso transforma causas menores em causas maiores, porém não necessariamente causas grandes. Por isso, “Jojô Toddynho é uma viajante do tempo, e a missão dela, em primeiro lugar, é acabar com a beleza q exclui evidentemente a maioria, e depois preparar os espíritos livres e “fascistas” a chafurdar no lixão coletivo”. Um tipo específico de espírito livre que se associa por afinidades internas ao fascismo. Há-de-se ter liberdade, em associação com a imaturidade ou irresponsabilidade, para se utilizar dessa condição privilegiada – ser livre – para se criar um agenciamento fascista-midiático.

Qual o bom do riso de Jojô? Ser o riso que liberta da escravidão dos corpos de boneca inflável que viraram todas as mulheres de acordo com um paradigma que se fortaleceu nos anos 90, onde não se vê a mínima estria, nenhuma imperfeição aparente (se bem que do meu ponto de vista o gosto com o qual se coloca silicones e se esculpe o corpo de muitas mulheres por si só denotam, através de um tipo de imperfeição, a feiura em estado pleno). Jojô Toddynho, já que falamos com Rogério Skylab, é a “danação da norma” como narrada na música Parafuso na cabeça:

Danação da norma, porém não sua superação. Acreditar que isso, por si, é a superação, é como acreditar num caráter verdadeiramente político de Silvana ou da Legião Urbana. Todo riso tem que vir muito próximo à acidez, e quanto maior um, maior o potencial para se desenvolver o outro. No caso de Toddynho, a afirmação da mulher, da negra, da obesa, de uma suposta anomalia física por causa do tamanho dos mamilos, etc., leva bem longe o que a pauta do multiculturalismo, do identitarismo comumente defende. A pauta da afirmação feminina é outra; ela pode ser potencializada caso a pauta da afirmação pela negra se agregue. Mas a moça em questão coloca a suposta feiura como pauta, ou seja, ser menor não é só pertencer a categorias nominalmente amplas. A feiura descaracteriza o que tão diligentemente foi colocado como identidades culturais abstratas, puras. Esse é um mérito. Porém se ele se esgota aí, pode servir como espécie de livros de auto-ajuda para pessoas que se sentem aquém das Barbies que saem na Playboy, que proliferam na televisão, sem nenhum sinal de humanidade, sem uma estria sequer.

A pauta de Jojô Toddynho é contra essas Barbies. Colocar de fato essa disputa na arena seria como fazer uma Banheira do Gugu real. E tudo isso é muito feio. Em meio à feiura dos extremos, a imaginação consegue identificar a beleza ideal como indiscernível à beleza chamada real. Se existe de fato uma linha de separação entre as duas belezas, ela é de uma porosidade não imaginada para quem se move entre os extremos do comumente aceito como belo e o comumente aceito como feio. Nesse entre-lugar está a beleza, não importa se ideal ou real, algo que só pertence à abstração e nem sequer à imaginação, ou seja, a sensibilidade estética, a única capaz de dar um juízo de valor sobre o assunto.

A feiura do identitarismo

O que passou a ser pauta depois da tomada de poder dos neocons com a queda do muro de Berlim, exemplificado no caso de estudo da Mani Pulite italiana, foi a substituição dos partidos políticos tradicionais por uma dualidade entre uma esquerda libertária e a direita liberal: uma legitima culturalmente a plataforma político-econômica da outra. Esse é uma dos motivos que fez Aldo Rebelo sair do PC do B e procurar o espaço da esquerda tradicional no partido que até pelo menos 2014 era o mais forte do nordeste (movimento fracasso, contudo…). Não adianta identitarismo sem base social, assim como não adianta combate a corrupção sem o mesmo enfoque na sociedade.

É sobre esses resquícios que a história deixa passar e não percebemos que Rogério Skylab foi minuciosamente estudar a questão Torquato Neto, um tropicalista e um anti-tropicalista ao mesmo tempo, e que, reverenciado pela crítica como marginal, se moveu no que Skylab denominou da difura do vampiro para a do escorpião. Mas, antes de entrarmos nisso, vou colocar como o músico coloca o problema em Em busca de um Torquato tropicalista:

 

No tocante à Torquato, sua persona se transforma em mito cult, representando tudo que é marginal a partir dos anos 60. Ainda que tenha forjado, junto com os baianos, o tropicalismo, a fama de marginal será nele muito mais forte que a de tropicalista – é como o texto de André Monteiro nos mostra. Mas ao invés de constatar sua marginalidade ou determinar suas possíveis causas, o texto de André Monteiro quer saber como se legitima sua fama marginal e como se processa sua fala mítica de marginalidade, admitindo que em Torquato essa fala é uma opção político-existencial, é uma postura política consciente. Sempre dentro de uma perspectiva não substancialista, André Monteiro faz ver o mito, recorrendo à Roland Barthes, não como  uma natureza absoluta e estática. Em outras palavras, enquanto fala, como um sistema semiológico, o mito é histórico, ou seja, depende do contexto do real. Ainda que seja a imposição de um conceito, de uma significação, e, portanto, afastando toda a contingência de uma história, o sentido (os dados da história do poeta) não é completamente desvitalizado – é necessário que o conceito se alimente do sentido e possa se esconder nele. Assim, o mito da marginalidade, em Torquato, se alimenta tanto de uma história pessoal (loucura e suicídio) inserida em um contexto cultural propício ao surgimento desse mito (discussões sobre micro-poderes e comportamento individual, com o desaparecimento de temas abrangentes – papel do intelectual, questões de identidade nacional ainda presentes na estética tropicalista), quanto de uma história que antecede sua história pessoal – a tradição de ruptura, tradição moderno-romântica do dissidente, que tem em Baudelaire uma figura inaugural. O fato do mito não ser uma questão de natureza, não ser algo absoluto e estático, mas histórico, e, enquanto tal, inserido no espaço dialético das contradições humanas, faz com que o suicídio de Torquato, por exemplo, que é o seu silêncio de morte, torne-se ao mesmo tempo o seu silêncio de vida, de integração à própria vida ordinária de compra e venda da cultura dominante (editoras, jornais, centros acadêmicos). Recorrendo à Susan Sontag, em “A Estética do Silêncio” (“A Vontade Radical, Estilos”), a renúncia à sociedade é profundamente social: “as pistas para a libertação final provém da observação de seus companheiros artistas e da comparação de si próprio com eles… um vez suplantado seus pares, há apenas um caminho para o seu orgulho… só após ter demonstrado seu gênio… que seus atos de recusa puderam gerar um efeito mítico e alcançar visibilidade e legitimação dentro de uma certa tradição de marginalidade” – gente que quer permanecer ressoando no tempo. É contra essa relação passado-futuro, que permanece meio escondida, que o tropicalismo se coloca como alternativa em sua crítica ao futuro e na sua perspectiva de presente.

 

Torquato parte de uma postura política consciente, ou seja, não ser mais um tropicalista, porém sendo um tropicalista ao extremo ao procurar radicalizar a experimentação que os outros membros do movimento faziam na época. Radicalizar em si próprio, numa estética da existência em elaboração, para além de debates intelectuais sobre o fazer artístico. É como continua Skylab:

 

Vejamos a música “Pra Dizer Adeus”, de Edu Lobo e Torquato: “ o poeta não quer simplesmente ir embora e silenciar-se por completo diante do ser amado; ele quer, antes de tudo, dar voz ao seu silêncio, comunicar o seu adeus e fazer com que o outro sinta a presença da ausência”. Contradição absoluta, o silêncio ressoando para sempre, a contínua presença da ausência, que faz cair por terra uma pretensa pureza da margem e um desprezo pela cultura dominante. Há, sobretudo, por parte do artista, um desejo de reconhecimento por essa cultura que finge desprezar, fazendo-se portador de uma sensibilidade excepcional diante da vida comum e da arte padrão de seu tempo. Daí porque seu suicídio é ativo: vontade de se autolegitimar, de se automitificar, enquanto um transgressor legítimo, digno de pertencer à casta dos poetas desafinados.

 

Skylab fala a linguagem dos silêncios, presente na carreira de Torquato talvez desde o início. Um outsider dentro de um movimento outsider. Do processo de fuga com uma boa identificação – o vampiro, imagem do marginal – ao processo de afirmação como o escorpião. Um processo de fuga sem fim, para além de qualquer preocupação em debates (não digo que em sua música e em sua postura não se inscreva toda uma questão estética e mesmo política), mas um afundar-se cada vez mais em sua trajetória errante, silenciosa, que o faz falar de política e de arte sem pronunciar qualquer palavra diretamente sobre os temas.

 

Paulo Andrade, no entanto, vai diferenciar o mito do vampiro da metáfora do escorpião, aos quais, Torquato vai estar ligado, para tentar entender o poeta de uma forma global e justamente em seu último ato. Há um movimento no sentido do anti-devir histórico e um outro que não encontra saída e se envenena  com o próprio veneno . No primeiro caso, como uma permanente recusa ao mundo moderno, utilizando-se do método antropofágico, vai flagrar nos sistemas de linguagem dominante, a presença de vários elementos, não só da vanguarda, mas também da cultura de massa e da cultura popular: “a alegoria expõe com base numa visão fragmentária, uma forma de pensar e viver, excluindo qualquer ideia de totalidade, o que esclarece, portanto, o caráter subversivo do movimento tropicalista – ao se libertar do desejo de totalidade, tanto dos discursos conservadores quanto dos progressistas, opta-se pelo fragmentário, revelando uma visão de mundo indefinida e estilhaçada” (pág. 185). Há não só uma crítica ao subdesenvolvimento, por meio de uma linguagem que se utiliza de informações dos aparatos tecnológicos, como também uma descrença nas utopias e um desencanto pelos projetos políticos da sociedade moderna – o que resulta num imobilismo e numa condição atemporal, própria de uma poética de resistência e inconformismo. Mas a partir do pós-68, a linguagem perde a força da denúncia, se interioriza e sobrevive como metáfora da desagregação, desesperança e loucura. É quando o experimentalismo rompe a fronteira arte e vida. Essa é a passagem do mito do vampiro para a metáfora do escorpião. Em seu último ato, enquanto espera a morte, Torquato escreve um bilhete. Se a morte ou suicídio é uma ausência de saída, que nos remete ao escorpião encravado em sua própria ferida, o bilhete, por sua vez, expressa algo completamente diferente: “tenho saudade como os cariocas do tempo em que me sentia e achava que era um guia de cegos” – essa permanente recusa ao mundo moderno, à marcha da história, através de expressões como “fico”, “amor”, “santa”, exprimindo o desejo de permanecer vivo na cultura brasileira, através da metáfora do vampiro, que pertence ao mundo dos mortos embora seja eterno.

 

Identificamos então algumas espécies de risos dentre os quais há uma divisão mais ampla entre um sorriso cor-de-rosa – Silvana e Todinho – e um riso amargo, Skylab e Mirisola. Falando deste, ele enumera uma lista de autores que não propriamente seguem a irreverência como modelo artístico; aquele nos cita o Barão Vermelho para exemplificar o oba-oba dos anos 80. Por fora de toda essa espuma, um outro duplo movimento: um precursor das angústias de se encontrar um lugar num mundo que não esteja em algum movimento artístico ou político delimitado, ou seja, o caso de Torquato, que o levará à identificação do vampiro com o escorpião; do outro lado, artistas que estavam se formando nesse período, 70-80, que poderiam ter alguma relevância já nessa época, que amadureceram sua produção nos anos seguintes, mas que se consolidaram, ainda que como outsiders, somente vinte anos depois. Um movimento do riso besta, com parcelas de verdade, alguma dignidade, e feito na medida para ser apropriado pelos conglomerados midiáticos, de se tornarem quase suas prostitutas. Outro movimento de um riso não indignado, mas amargo, ou seja, esse movimento que veio depois, e que só é compreendido como disperso por quem não entrevê as relações entre autores que, no mais, não precisam manter contínua troca de ideais entre si; que não precisam mesmo nunca terem se falado. No meio disso, um Torquato que vai de amargor a amargor, sem conseguir daí extrair propriamente um riso. De fato, no máximo, um riso de alguém intimamente indignado, ou seja, amargurado. Não a indignação de “nosso país vai ficar rico, vamos faturar um milhão” ou outras coisas estilo Cazuza. É uma amargura para além da mera amargura, um comportamento que enfatiza – já que tratamos de um precursor – todo um dilema da década seguinte sobre onde se colocar nessa sociedade em mudança, numa abertura política tacanha, seja com as promessas Constituinte ou com que foram feitas com a reunificação alemã.

Todos mortos ao fim. Cazuza, Renato, Raul e quantos mais? E quantos mais morreram não por terem o óbito decretado por um médico, mas morreram de inúmeras formas, desaparecendo para a cultura, desaparecendo com o resquício de poder questionador que poderiam ter, ou usando esse poder para “lobãotomizar” nossa cultura? Eu quero saber quem matou!, como grita Skylab em sua música homônima, onde indica uma série infindáveis de mortes…

É um silêncio, mas qual espécie de silêncio se trata? No caso, quem matou? Quem foi morto, quem se matou, quem se mata a cada instante… Como descrever cada uma dessas mortes? Um programa completo para um livro da música brasileira que tratamos aqui… Um verdadeiro tratado de anatomia patológica como os escritos no século XIX, com Bichat (O nascimento da clínica), onde se buscava ver no morto os traços da vida e, no caminho inverso, como se chegou à morte. E quem acha que a busca por uma identidade seja algo em si, que pelo menos saiba radicalizar como Torquato. Caso esse seja um valor em si e não sua busca um sintoma, que se saiba das consequências, do vampiro ao escorpião ou do mero marginal ao ídolo pop. Outras formas de morte.

Nessas inúmeras aporias, portanto, todo um programa para a longa história de um tempo muito recente.

O ponto que Torquato para, em seu Cogito, não é nada mais do que o ápice de todo esse processo de radicalização. Tudo menos um ponto de parada. Logicamente, nada PLOC, nada que remeta à dupla liberal-libertário. Um amargor apenas serenado, com promessas de risos, de carinhos, mas ainda não ácido, o prelúdio da gargalhada, para além do vampiro e do escorpião, que ainda podem servir de idealizações, de propaganda, para o sistema publicitário-culturalista desse período de pós-democracia, dos 80 até hoje, como demonstram inúmeras publicações, hoje, sobre Torquato.

Que se visite o Godard City, o work in progress de Skylab, para se ler inúmeros capítulos sobre essas histórias.

 

 

 

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