A História sob o signo de Jano

Seria este o deus que corresponde à historiografia?

O progresso ilimitado além de não ser um conceito grego, nunca foi um conceito dos historiadores. Logo, com Deleuze e Guattari, vemos que a filosofia da história é um conceito particular de determinados filósofos, como na teleologia hegeliana. Existiria talvez algo novo nisto caso comparemos as filosofias da história mais modernas, como a que dita o fim dos tempos, principalmente após a queda do muro de Berlim… O mundo liberal que se impõe guardaria a constituição mais perfeita, não precisando mais de se voltar a antigas formas ou se especular a respeito dela, assim como para Hegel marca o fim da história, seu marco último e mais perfeito, sua própria filosofia, o Terror e Napoleão. É quando o horizonte de expectativas se reduz a tal ponto que delimita um campo de experiência ilimitado. Infinidade não mais no conceito, no porvir, mas na experiência de se viver um mundo definitivamente, e irrevogavelmente (assim acharam os neoliberais), pós-histórico e com muita “liberdade de comércio”, claro. Ao contrário de Políbio ao lado de Cipião ao assistir o incêndio de Cartago, não puderam prever a inevitável ou a mais do que possível ruína do Império que poderia fazê-los visualizar uma história sem fim… A queda do muro de Berlim, o correlato do incêndio de Cartago, encontrou homens muito, mas muito, menores do que os da Antiguidade.

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Não História: Imagem-Tempo

O que vemos e o que nos olha, como no Film, de Samuel Beckett
 
A fenomenologia procura criar, desde Hegel, um modelo explicativo para a história que esbarra em suas próprias limitações. Forma-se uma teoria sobre as teorias da história, mas que são incapazes, mesmo com toda a sofisticação, de explicar o devir histórico ou a prática da escrita historiadora. É menos em “Tempo e Narrativa” do que em “A memória, a história e o esquecimento” que Paul Ricoeur demonstra as aporias do discurso filosófico frente a plasticidade da produção historiográfica. Mas não está em jogo as velhas celebrações a respeito da historiografia francesa, dos Annales. O que se destaca é o entrecruzamento entre o que Deleuze ao ler Bergson entende por “objeto real” compreendido como “imagem-cristal” ou “descrição cristalina”, onde a “indiscernibilidade do real e do imaginário, ou do presente e do passado, do atual e do virtual, não se produz, de modo algum, na cabeça ou no espírito, mas é o caráter objetivo de certas imagens existentes, duplas por natureza”.
O que se pergunta não é só o que é o objeto da história, mas qual sua natureza, como ele funciona, ao se traçar uma zona de indiscernibilidade em que se pode perguntar como se pensa a história e fazer o inventário de sua escrita, ao se perguntar qual a natureza do documento historiográfico ou das perguntas que levam a uma pesquisa histórica, sejam eles reais ou imaginários.

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