Como nasceu o termo “fake news”? O “Russiangate” e a crise política nos EUA

MIKHAIL/POCHUYEV/TASS/ALAMY

Os jornais da imprensa internacional inventaram o termo “fake news” logo após a eleição de Donald Trump nos EUA. Foi uma vitória que surpreendeu muitas pessoas e os ultraliberais de lá (facção que interpartidária, neoliberal e pró-guerra, como Hillary Clinton e John McCain) começar a acusar os russos de terem interferido nas eleições americanas. É como Putin sempre diz quando perguntado sobre o assunto (ver a entrevista dada a NBC logo após seu pronunciamento bombástico em 1º de março): “Não existem qualquer provas de que o Estado russo tenha interferido em eleições estrangeiras. Contudo, nenhum ofício do governo americano foi enviado à minha administração. O que existe são acusações da imprensa e de ex-funcionários do governo hoje investigados. Os EUA dizem para mim que podem interferir nas eleições de qualquer país porque estão levando a democracia, mas os russos não podem porque são autocratas” (tradução não literal da entrevista acima citada).

O fato é que em poucos anos vivemos de maneira intensa um processo de aceleração do tempo histórico. Volta do macartismo, uma nova Guerra Fria, outra corrida armamentista, golpes de Estado mundo afora. Tudo isso em poucos anos. O mundo ficou literalmente de “ponta-cabeça”. Como no livro homônimo de Christopher Hill, vivemos uma situação similar, caso comparado a um processo histórico mais distante, às guerras religiosas que sacudiram a Europa logo após a Reforma Protestante. Igualmente, precisamos respeitar a comunidade de Estados nacionais soberanos como o Tratado de Westfália prediz, solução encontrada no século XVII para por fim à guerra hobbesiana de todos contra todos (e também para não endossar a solução autoritária de Thomas Hobbes). Essa é a solução para sairmos da unipolaridade instituída após a queda do muro de Berlim, e ultrapassar o paradigma de confronto das décadas de Guerra Fria. As “fake news” são um epifenômeno do processo mais amplo de demonização do crescimento econômico chinês e de ameaça ao sistema financeiro transatlântico. É um arma semiótica, porém seus propagandistas não negam o desejo de ir à guerra – termonuclear – caso sintam sua hegemonia irremediavelmente abalada.

O escândalo chamado nos Estados Unidos de “Russiagate” aponta que houve uma conspiração (“conluio”) entre Donald Trump e o Kremlin. Os arquivos do Partido Democrata supostamente teriam sido invadidos por hackers russos e as informações vazadas para a Wikileaks, onde se revelava trapaças de Hillary Clinton para prejudicar Bernie Sanders na disputa das primárias. Segundo os democratas, essas informações, que vieram a público dias antes da eleição presidencial, foram cruciais para a vitória de Trump no pleito. Começou então a histeria russofóbica, neomacartista, nos Estados Unidos, apontando o presidente recém-eleito como agente de Vladimir Putin. Toda retórica própria de uma nova Guerra Fria passou a impregnar a imprensa estadunidense. Isso é algo, porém, que ganhou contornos muito mais graves anos antes, desde o golpe de Estado patrocinado por Obama na Ucrânia (na esteira das “revoluções coloridas” – guerra irregular moderna – que atingiram o Brasil em 2013). Ali, a OTAN passou a ocupar definitivamente, e de forma cada vez mais ostensiva, as fronteiras com a Rússia, num movimento chamado por muitos de Crise dos Mísseis invertida, porém sem causar escândalo para o Ocidente.

O fato é que Donald Trump é alvo agora dos mesmos ardis que tiraram Viktor Yanukovytch do poder. O ex-presidente da Ucrânia se negou a assinar acordos de livre comércio com a União Europeia, acenando que não gostaria de fazer parte futuramente do sistema euro, e estreitava suas relações com Vladimir Putin. Esse, sem dúvida, é um caso clássico de estudo para os golpes de Estado no estilo do século XXI. Mesmo o professor Stephen Cohen, democrata histórico, denuncia semanalmente em sua coluna no “The Nation” (órgão de imprensa também alinhado aos democratas) os perigos da Nova Guerra Fria e a necessidade de uma política de détente com a Rússia. Um nome mais conhecido aqui no Brasil, Gleen Greenwald, que igualmente não nutre simpatia alguma pela plataforma política republicana e mesmo por Donald Trump, escreve sistematicamente sobre os perigos do “Russiagate”.

As primeiras acusações contra Trump praticamente caíram por terra depois que seus agentes, em especial o ex-diretor do FBI Robert Mueller, não conseguiram apresentar qualquer tipo de prova a respeito da “colisão” russa nas eleições americanas, e do memorando do VIPS (Veteran Intelligence Professionals for Sanity), órgão independente de ex-membros dos serviços de inteligência, onde se apontou que não há evidência de que hackearam os arquivos do Partido Democrata, mas que houve vazamento de informações. A intervenção, portanto, se deu através de um agente interno que liberou as informações em sua posse para a Wikileaks. Nas últimas semanas, as acusações foram requentadas, mas agora com verdadeiros requintes de crueldade. A Rússia pagou agentes para influenciar nas redes sociais a favor de Donald Trump, algo que é considerado a partir de agora, abertamente, um “ato de guerra” russo, igualados ao ataque de Pearl Harbor e ao 11/09.

artigo da “The Economist” publicado no dia 22 de fevereiro é um claro chamado à guerra, na esteira das novas acusações. Sem medo de cair no ridículo, assim eles o anunciaram no Twitter: “Para a democracia prosperar, os líderes ocidentais precisam de transparência, resiliência, retaliação e dissuasão”. Deve-se lembrar que além do avanço da OTAN na fronteira com a Rússia e o fortalecimento do “eixo do Pacífico” (o que implica diretamente a China e sua área marítima e comercial), ambos com Barack Obama, uma das promessas de campanha de Hillary Clinton era criar uma zona de exclusão aérea na Síria, o que significaria a necessidade por parte da OTAN de abater todos os aviões em solo ou no ar que não fossem de sua própria força. A Rússia auxilia os sírios contra o Estado Islâmico com sua força aérea. Não por acaso para muitos, dentro e fora dos EUA, Hillary como presidente significaria guerra imediata com a Rússia, um holocausto nuclear. Não foi só por xenofobia ou por “interferência russa” que Donald Trump foi eleito.

Além do mais, como lembra Stephen Cohen, especialista em assuntos russos e professor emérito de Princeton e da New York University, “de acordo com a colunista do Washington Post, Kathleen Parker, a intrusão russa nas redes sociais manipula a mente dos americanos… A mente dos usuários das redes sociais nos EUA está se tornando mais, e não menos, maleável. E assim, ela continua, é verdade especialmente para pessoas mais velhas, não educadas e não brancas”. Elenca ainda outros exemplos onde os americanos, “idiotas”, são vistos por um viés declaradamente racista por escritores de destaque nos veículos mais prestigiosos de seu país. Talvez não seja Trump quem está nos mostrando a “América profunda”… A mera inclinação para negociar com russos e chineses acabou por se tornar um fio de esperança numa escalada militar e ideológica sem precedentes iniciada nos últimos anos, ao arrepio dos democratas de todo o mundo. Um mundo de ponta-cabeça.

Texto brevemente modificado do publicado por mim na revista Mundo em Transe

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