Genocídio e liberalismo

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A facção liberal internacional aponta hoje para um ainda mais estranha imagem do “fim da história”: de um lado, um sistema bancário/financeiro que não consegue viver sem juros baixos, próximos a 0%. Como uma instituição financeira sobrevive sem seu lucro primário, ou seja, o que vem dos juros dos empréstimos bancários? Ainda mais, a possibilidade de aumento da taxa de juros coloca em risco a solvência de todo esse sistema montado ao redor da City de Londres e Wall Street.

Por outro lado, a facção ultraliberal, com seus expoentes mais significativos nos EUA e Europa, lançam uma campanha de guerra incidiosa contra a Rússia e a China, seja pelo !eixo do Pacífico” criado por Obama para conter os “avanços chineses” no chamado Mar da China, com o avanço da OTAN nas fronteiras da Rússia e o uso do “direito de proteger” invocado por Tony Blair em 1999, num prelúdio do que seria todas as justificativas para as “intervenções humanitárias”, desde a Guerra do Iraque até hoje.

O iminente colapso do sistema financeiro transatlântico, como apontado por inúmeras instituições internacionais de diferentes visões políticas, assim como a crescente escalada militar que parte do ocidente para o oriente, traçam duas linhas que podem convergir e levar à impossbilidade de qualquer regime chamado liberal no planeta. O genocídio anda de braços dados com o liberalismo, seja em ações de baixa intensidade (medidas de austeridade econômica, sanções econômicas, guerra comercial, etc.), até a criação de golpes de Estado e a ameaça de guerra, numa etapa bastante acelerada de uma nova Guerra Fria, muito mais “quente” que a anterior.

É essa dicotomia entre liberalismo e genocídio que procurei explorar nesse artigo.

Publicado originalmente na Voyager One

As evidências mais recentes

No mês de setembro do ano passado, desde a reunião dos países BRICS até o último encontro da Assembleia das Nações Unidas, ficaram evidentes, de todos os espectros do campo político, o diagnóstico de colapso generalizado da economia para os próximos meses. Do FMI ao BIS, do instituto britânico Adam Smith às publicações alemãs Die Welt, Die Spiegel, todos fazem coro ao que o Comitê de Ação Política Lyndon LaRouche vem alertando há tempos: a crise financeira é um acontecimento próximo a acontecer[1]. Seis meses antes, Paul Gallagher, um dos editores da revista do Comitê, a Executive Intelligence Review, entrevistou Nomi Prins, analista financeira, escritora e ex-executiva da Goldman Sach, onde apontou as falhas das medidas de recuperação econômica tomadas a partir de 2007-8, e defende a lei de separação bancária Glass-Steagall, cuja reimplantação representaria um calote da dívida à maneira de quando foi criada durante o governo de Franklin Roosevelt[2].

Para sanar a escassez de liquidez do sistema bancário, os países desenvolvidos colocaram taxas de juros a 0% ou próximas a isso, e imprimiram muito dinheiro para dar conta da demanda. A injeção de liquidez no sistema financeiro, não acompanhado de crescimento econômico e do aumento das taxas de lucro, pode nos levar brevemente a uma nova crise, ainda pior. O esperado aumento das taxas de juros já vem ameaçando a solvência dos bancos, empresas e países (como nos casos mais graves da Grécia e da Itália) e criou a primeira queda acentuada nas bolsas de valores de todo o mundo desde que Donald Trump assumiu a presidência. A situação futura, a continuar o programa de priorizar a financeirização da economia ao invés do investimento na economia física, poderá levar a uma crise que implodirá os dois, tanto os bancos como as economias nacionais, ou seja, a um colapso completo da economia transatlântica.

Há pouco o governo de Donald Trump foi alvo de críticas por parte dos liberais americanos (os democratas de lá) por causa da lei que retira a taxação das fortunas imensas. A crítica é óbvia no sentido em que aponta para o aumento dos privilégios dos mais ricos em meio a uma conjuntura econômica desfavorável. Seus defensores dizem o contrário: foi uma medida para repatriar recursos nacionais estacionados em contas estrangeiras e, assim, injetar liquidez na economia nacional. Contudo, a única indicação de repatriação de recursos foi a intenção da Apple (que tem 90% de seus recursos no estrangeiro) comprar a Netflix, além de índices favoráveis no Dow Jones e a promessa de bonificação extra aos trabalhadores feitas por algumas empresas – hoje diretamente contestada por causa da queda súbita das bolsas diante do aumento inevitável das taxas de juros. Em suma, da economia do trabalho escravo para a indústria dos softwares no Vale do Silício: muito dinheiro na conta dos acionistas e pouquíssimos postos de trabalho criados. O dilema maior enfrentado pelo presidente dos EUA é fazer valer sua promessa de campanha de investir um trilhão de dólares em infra-estrutura. Não será do dinheiro dos super-ricos que se criará os recursos necessários para levantar tal montante de dinheiro. Igualmente, não há consenso naquele país sobre a viabilidade da criação de PPPs para viabilizar o projeto. Trump se debate com seus acessores mais próximos sobre o tema: é impossível realizar seu projeto através desse tipo de parceria.

Com as últimas medidas protecionistas, os críticos devem se atentar a um fato: muito se lamenta por se mexer na estrutura de livre-comércio que o próprio EUA ajudaram a criar quando jogaram fora o acordo original de Bretton Woods, aquele forjado por Roosevelt e que tinha como objetivos promover o comércio justo entre os países. O suposto anacronismo[3] cometido por Trump (acreditar no “made in”) é por ser uma medida por demais tradicional a imposição de tarifas a determinados produtos (algo que, contudo, nunca deixou de ser largamente praticado, inclusive sob a tutela da OMC). A base dos acordos de Bretton Woods foi a justiça comercial através de um regime de trocas baseado em padrões de câmbio pré-fixados. Se é difícil imaginar os EUA desvalorizar sua moeda para proteger a economia, é ainda mais difícil acreditar que, com qualquer governo, se crie o consenso suficiente para implodir a hegemonia do dólar, correlato da liquidez infinita ao sistema financeiro, forjada com Nixon na esteira da chamada “crise do petróleo” (crise de desintegração econômica dirigida).

O fato é que ele se comprometeu em reinstaurar a lei Glass-Steagall, o que implica imediatamente o cancelamento das dívidas especulativas e na criação de um programa nacional de crédito voltado à recuperação econômica, como foi o objetivo de Roosevelt quando assinou a lei de separação bancária, cujo desmonte se inicia na década de 1970, até ter seu fim decretado durante o governo de Bill Clinton. Não é coincidência que em menos de dez anos uma crise financeira jamais vista estourou. Mesmo depois de seu primeiro State of the Union Address, Trump ainda tem que se justificar com seus eleitores, pelo menos para muitos deles que deram seu voto confiando no encolhimento da presença americana no estrangeiro (das empresas, do capital e das tropas do país) e a volta da atenção para os problemas domésticos, como o da combalida infraestrutura americana, como mostra o exemplo paradigmático de Nova Iorque[4].

Se a crise 2008 mostrou o caso trágico de Detroit, há décadas abandonada desde que os EUA largaram sua política industrial, de antiga cidade industrial americana à cidade-fantasma, ela ainda serve como termômetro do desenvolvimento nacional[5]; se um pouco depois foi revelado a epidemia de opioides no país, num ciclo vicioso que vai desde a multiplicação de receitas médicas para tentar remediar cidadãos deprimidos, desiludidos, até os traficantes de cocaína e heroína espalhados pelo país, e vice-versa, o que levou às mais altas taxas de morte violenta (suicídio, overdose, etc.) entre o chamado “americano branco não hispânico”, o grosso da classe média desse país (historicamente associada à indústria)[6]; o caso da falência da cidade de Nova Iorque pode nos remeter ao período de industrialização dos EUA, quando, por Lincoln, foi construída uma ferrovia transcontinental, o canal do Panamá e um sistema ferroviário integrado entre os estados. Hoje, esse país, mergulhado na mais profunda dívida de sua história, não encontra recursos para reformar estradas, metrôs, muito menos construir um amplo sistema de trens de alta velocidade do tipo maglev, como faz agora a China com mais de trinta mil quilômetros de ferrovias construídas. E querem expandi-las para o Oriente Médio e a Europa através da Iniciativa Um Cinturão, Uma Rota…

Não foi só o americano “branco não hispânico”, por razões que vão desde a xenofobia até a desilusão com as políticas neoliberais de Barack Obama, que votou em Trump. Patriotas também acabaram por optar pelo polêmico presidente, tendo em vista seus discursos em alusão ao velho sistema de economia política americano do século XIX – protecionista e antiimperialista[7] –, e à promessa de recuo da expansão militar americana, com críticas contundentes do então candidato aos feitos de seu país na Síria e das relações com a Rússia. É quase consenso entre esses círculos que, caso Hillary fosse eleita, já estaríamos em pleno holocausto nuclear. Não por outro motivo, as manchetes dos jornais mundo afora começaram, logo após sua posse, a fazer uma campanha intensa contra Trump com acusações falsas de “colisão” russa nas eleições, como se Trump fosse um agente russo. Um comunista soviético na Casa Branca?

A sofística chamada liberalismo

O esplendor de Xangai nos mostra não apenas o crescimento asiático, mas a inevitabilidade de um mundo multipolar. Como Paris anteriormente, Nova Iorque nunca mais poderá aparecer no cinema como a capital do mundo.

É curioso o liberalismo americano. Obama através de seu presidente da Reserva Federal, Ben Bernanke, tomou medidas “keynesianas” para combater a crise de 2008. Imprimiu dinheiro aos borbotões para resgatar o chamado “sistema financeiro”, ajuntado de instituições que não criam um emprego sequer, enquanto “criou novos empregos”, ou seja, aposentados e pensionistas tiveram que começar a trabalhar por não receberem mais dos municípios ou estados – todos quebrados ou altamente endividados e não devidamente “resgatados” –, o salário diminuiu, as jornadas intermitentes cresceram devido à galopante desindustrialização e a falta de recursos para se investir em infraestrutura, e ainda hoje em Nova Iorque se luta para mudar o piso salarial diário de 10 para 15 dólares e nela vive-se um caos no sistema de transportes. E nem para falar que nosso combalido SUS, por princípio, é infinitamente superior à securitização massiva da saúde chamada Obamacare, ou de sua porca “bolsa esmola”, que dá direito apenas a compra, via cartão, de comida em supermercado. Quando Lula fez aqui o Bolsa Família sofreu ataques covardes porque o benefício deveria ser “só para comida”. Ali Kamel, Merval Pereira e assemelhados ficaram indignados por estarem comprando fogões e geladeiras com o dinheiro do governo. Não lembro qual boa alma escreveu na época, numa resposta direta a Kamel, ao redarguir se ele preferia que as famílias pobres continuassem a cozinhar num buraco no chão da sala – realidade de muitos – a comida “caridosamente” fornecida pelo governo. Isso sem contar o aspecto mais amplo, da conjugação de programas sociais como o de compras de alimentos com as políticas de aumento real do salário mínimo, com impacto direto na Previdência, para o bem, pois então ainda se gerava novos postos de trabalho e com as devidas garantias constitucionais. Kamel ecoa Obama assim como Miriam Leitão, defensora das cotas, ecoa Hillary Clinton. Não estão distantes do liberalismo clássico britânico com sua “lei dos pobres”, seja a de John Locke ou a efetivamente levada a efeito pelo Estado, a de Jeremy Bentham, o infame craidor do Panóptico. Para eles, o lugar do pobre está muito bem delimitado, circunscrito, diagramado.

Muitos dos que votaram em Trump, ao contrário do que quer dizer o New York Times, Wall Street Jornal ou o Washington Post e suas sucursais nos países periféricos, votaram em prol da volta dos investimentos na economia nacional, insuflados pelos discursos que faziam remontar às origens do Partido Republicano. Por outro lado, frente às promessas de Hillary de criar uma zona de exclusão aérea na Síria (que levaria à obrigação da OTAN de abater não só aviões sírios, mas todos os não pertencentes a OTAN, seja em voo ou estacionados… Nessa ocasião, quantos aviões russos serviriam de rastilho de pólvora para o holocausto nuclear?), a “colisão” de Trump com Putin, sua proximidade com quadros críticos da política externa norte-americana como o general Michael Flynn, hoje alvo de sabotagens tenebrosas por ter ingressado no governo eleito, fez a esses eleitores vislumbrarem uma maneira mais eficaz, para além dos discursos moralistas e supostamente beneficentes dos liberais americanos, ou seja, os discursos de mudança feitos por Obama, de contornar as difíceis situações que seu país criou não só no Oriente Médio, mas com a expansão da OTAN no leste europeu para defender o ocidente de uma suposta ameaça russa (de um país que nem sequer saiu de suas fronteiras ao contrário da OTAN, ou seja, uma situação como uma Crise dos Mísseis invertida), ou das verdadeiras colisões que poderiam desencadear um conflito armado entre ocidente e os países asiáticos depois da primavera árabe na Ucrânia, levada a efeito pelos apoiadores de Stephan Bandera, antigo associado de Adolf Hitler, formando a cabala entre neonazis e neoliberais encabeçada pela Secretária de Estado para Assuntos Europeus e Euroasiáticos de Obama, Victoria Nuland (indicada por Dick Cheney e assessorada por John McCain), pega em gravação telefônica articulando com o embaixador americano na Ucrânia o Maidan[8]. Assim se constrói nos EUA um partido liberal, e democrata.

Como pano de fundo, a esperança desses eleitores de Trump[9] (logicamente não todos) foi a de se criar um trabalho conjunto com a Rússia para acabar a política de confronto no Oriente Médio; na esteira do Brexit, levar a Europa a acabar com suas políticas de austeridade igualmente ancoradas nos “resgates financeiros” à moda de Ben Bernanke (há uma estreita correlação entre sistema euro – união política via união monetária –, com a Troika e o desmantelamento do estado de bem estar social europeu – “coisas tão óbvias, por que se falar?”…); o fim das sanções contra a Rússia na Europa, ao redor de uma política de diálogo com o oriente, sanções estas que prejudicam os europeus e pouco os Estados Unidos; e a volta da industrialização e do investimento em infraestrutura no país[10]. A aporia que esbarra o atual presidente e seus assessores é como se dará a volta dos investimentos. Seu programa de colocar um trilhão de dólares na economia ainda está longe de ser resolvida. Trump, depois de isentar de impostos os 1% mais ricos do país comemorou em seus twitters uma suposta injeção de 7 trilhões na economia americana ao expor os índices do Dow Jones. Independente das reações “intestinais” da bolsa (ora de subita ora de descida, de vômito ou diarréia), o fato é que esses sete trilhões nada tem a ver com a economia real, com a criação de postos de trabalho bem remunerados. É dinheiro virtual. Disse ele que milhares de trabalhadores estavam recebendo bônus salariais de até 2 mil dólares como benfeitoria dos ricos que começaram a repatriar seu dinheiro, além de algum investimento em caridade. Nada efetivo, portanto, apesar da habitual histeria do presidente. Ele alardeou igualmente em recente entrevista ao New York Times que os Estados Unidos gastaram 7 trilhões de dólares no Oriente Médio, mas se quisesse arrumar 12 dólares para consertar uma rua ou uma estrada não conseguiria[11]. Dilemas do pobre primo rico desse continente…

O atual crash

Os dirigentes norte-americanos, talvez não tão diferentes dos brasileiros, não tem a mínima noção de como criar crédito. O aumento das dívidas estudantis, no financiamento de carros e das dívidas em derivativos dos bancos, todas securitizadas pelos megabancos de Wall Street e da City de Londres, ou seja, a criação de novas bolhas financeiras, é o único modo como ainda se entende a questão da criação de dívida. Trump discute se injetará os 1 trilhão de dólares prometidos em infraestrutura através de PPPs (parcerias público-privadas). Porém, por exemplo, quando Roosevelt criou seu programa de eletrificação rural não pensou em quanto isso traria de retorno, de lucro, às empresas que investissem em seu projeto. Sem o crédito de longo prazo a taxas baixas de juros não se reconstrói economia nenhuma. Ao contrário, no Brasil, na ausência de um sistema de crédito minimamente viável, o programa Luz para Todos foi feito com dinheiro do governo federal. Sabe-se do vício desses grandes contratos, mais imoral por concentrar em grandes empresas de construção civil todas as etapas de um projeto ou edital do que por causa de propinas pedidas por agentes individuais. Só um sistema de crédito eficiente, mas também uma população com qualificação profissional suficiente para se organizar em torno de pequenas e médias empresas no setor industrial (para além de qualquer ideologia de “empreendedorismo”, esse mal do terceiro setor e do Vale do Silício) pode construir uma economia capaz de produzir muito mais do que necessita, produzir em abundância que, se de um lado mitiga a inflação e a carestia (que são coisas diferentes; não adianta inflação baixa com baixo poder aquisitivo da população, com desemprego, que, baseado nesse mal, foi o slogan do Plano Real, esse populismo ao modo séc. XXI (“coisas tão óbvias, por que se falar?”…)), projeta o seu país para além de suas fronteiras. Enquanto Brasil ou Estados Unidos continuarem sem saber como contornar o sistema da dívida e criar um verdadeiro sistema de crédito, a população desses países e de tantos outros continuará sofrendo com as medidas de austeridade, com o desemprego, com a falta de perspectiva de vida. Na Europa, por seu lado, tudo isso é agravado pelo drama da imigração, fruto direto da intervenção estrangeira, seja por revoluções coloridas (guerra irregular moderna), ou a por meios militares nos países do norte da África e do Oriente Médio (os dois tambem trabalham junto em prol dos liberais, como guerra mundial e crise sistêmica do capital, ambos – sempre – provocados, não “cíclicos” ou “espontâneos”).

Liberalismo não é apenas laissez-faire ou ser “liberal na economia e conservador nos costumes”. A facção liberal é a facção da guerra, principalmente nos EUA e na Europa. Guerra contra populações com medidas de austeridade e de transferência de renda para os mais ricos (como os resgates ao sistema financeiro) ou sanções econômicas; guerra contra o princípio de Estado-nacional soberano, o “direito de proteger” de Tony Blair, ou seja, política de intervenção militar e de mudanças de regime; guerra contra a humanidade ao se ameaçar a Rússia e a China, seja com o “eixo do Pacífico” de Obama, a expansão da OTAN no leste europeu, na Ucrânia ou a continuidade de suas tropas no Oriente Médio. Os liberais não podem viver num mundo com mais de 10 bilhões de pessoas, não polarizado, ou seja, incontrolável. Para tanto, por meios dos mais diversificados, fazem baixar o padrão de vida de países inteiros, o que leva ao genocídio, a uma verdadeira situação de caos social e, com isso, as ameaças de guerra. Para tanto, promovem diariamente provocações militares contra os adversários mais perigosos. Seria um alívio para eles se a população do planeta diminuísse em pelo menos um terço. Como disse o príncipe Bernhard da Holanda, agente nazista e criador do fundo ambientalista WWF: caso houver uma outra vida, gostaria de nascer como um vírus mortal para eliminar a maior parte da humanidade[12]. Essa é a política do Império, no mínimo desde o século XIX, na Grã-Bretanha. Crash financeiro pode redundar em guerra: essa a lição da década de 1930 para o mundo.

Em relação ao espaço que Trump deixa aberto para outras potências, em especial a China, devido ao seu narcisismo político e a fuga de tradicionais tratados de livre-comércio sempre criados pelos EUA, deve-se ter em conta que a proposta Um Cinturão, Uma Rota, defendida mundo afora por Xi Jinping, é considerada um plano econômico ao estilo do Plano Marshall, porém mais de cem vezes maior. Além da reinstauração da lei Glass-Stegall, o que os EUA deveriam fazer é utilizar os imensos recursos chineses na compra de títulos de sua dívida, e redirecioná-los, em parceria, para a reestruturação de sua economia. Agora não é só o metrô que para e passarelas que caem: toda a infraestrutura do país está a ponto de entrar em colapso devido às décadas de primazia dada aos petrodólares e ao capital colante transnacional. Essa é a verdadeira “PPP” que Trump deveria defender, ou seja, a parceria de seu governo com o governo chinês e das empresas de ambos os países visando o objetivo de reestruturar a economia física do país. Não é possível alguém se lamentar que um acordo de livre-comércio como o Tratado Transpacífico tenha virado pó… Do sistema euro ao Nafta e a Alca, todos esses mecanismos de livre-comércio e de hegemonização de uma moeda única devem ir para a lata do lixo da história em um mundo verdadeiramente multipolar, ou seja, num mundo onde potências que se querem como as únicas líderes do mundo – com ameaças constantes de guerra para utopicamente[13] aniquilar seus oponentes – não mais existirão.

A reinstauração da lei Glass-Steagall e as ameaças de guerra

  Ao contrário da lei Dodd-Frank, de 2013, que regulamenta a atividade financeira de maneira bem frágil, quase uma meia culpa diante das atrocidades do setor não produtivo, especulativo, que causou a crise de 2007-8, a lei Glass-Steagall, cancelada definitivamente em 1999 sob a presidência de Bill Clinton, foi criada no governo de Franklin Roosevelt, e tinha como dispositivo básico a separação bancária. De um lado os bancos de crédito, de outro os que quisessem mexer com apostas. Wall Street permitiu a longa orgia financeira, Glass-Steagall não. As soluções criadas para sanar a crise estão forjando as condições para que se caia de uma altura ainda maior. Existem trilhões de dólares flutuando do FED para os grandes bancos (os chamados por Obama de too big to fail”), por causa das políticas de taxas zero, de resgates e do Quantitative Easing, não só nos EUA, como também na Europa e no Japão. Nada disso vai para a economia física. São direcionadas somente para aumentar ainda mais as especulações financeiras. Contudo, a lei Glass-Steagall pode restaurar a estabilidade do setor bancário, voltar os recursos para o crédito público e o investimento na geração de empregos, no incremento da economia física.

Os seis maiores bancos dos EUA (os too big to fail) tem seus ativos 21 ou 22 maiores do que antes da crise. Esta, pelo contrário, não os fez diminuir. Seus depósitos são de 30% a 40% maiores agora. Deste modo, seria difícil constatar que essas instituições passem por problemas. A lei Dodd-Frank[14], um mero truque para dar aparência de novas regras para os bancos (tanto que dispõe da possibilidade de se fazer os famigerados “resgates internos” – bail-in -, ou seja, tirar dinheiro dos correntistas, das poupanças, para pagar as dívidas em derivativos dos bancos, como no caso do Bankia espanhol e como aconteceu no Chipre), em sua segunda cláusula, impõe que os bancos apresentem regras e métodos com um projeto factível para saírem de uma possível nova crise. Somente o City Group apresentou um plano, mesmo repleto de problemas com empréstimos e que, apesar de seu tamanho gigantesco hoje, seria muito difícil que se livrasse de uma nova crise. Nomi Prins[15] chama a cláusula da lei Dodd-Frank de “teste de imaginação”, o que é bem longe de uma tentativa mortal de regulação, como alegam os bancos contra a lei. No mais, é impossível manter taxas de juros a 0% infinitamente, o que, por si só, com a mudança dessa política, traria e já traz problemas diversos aos bancos.

A lei Glass-Steagall foi aprovada na década de 1930 com um consenso bipartidário. Ficou entendido que com ela os bancos teriam mais fundos, poderiam assim fornecer mais créditos. Os que querem fazer investimentos que façam por sua conta e risco. Não há razão para temer a regulação do setor bancário, porque esta trará solvência aos bancos de crédito, limites para os que vivem de apostas, e injetará dinheiro na economia física, que é o único meio de retorno que os bancos podem ter sem correrem os riscos das rodas financeiras. Ao contrário da década de 1930, em 1999 usaram do voto bipartidário para repelir a lei Glass-Steagall, por acreditarem que tiveram muitos anos seguidos de prosperidade e as regulações somente atrapalhariam, e não estimulariam, a economia. O setor bancário argumenta, contudo, que a regulação irá acabar com a competição entre os bancos (competição entre 6 gigantes?! Isso é briga de cartéis, como os da Colômbia e da Itália!), mas a última década mostra a insegurança expressa em inúmeras pequenas crises financeiras, sucessivas, até chegar à falência generalizada de 2007-8. Isso não deve ser uma questão partidária, adverte Nomi. Tanto democratas quanto republicanos devem procurar evitar uma nova crise, com certeza bem pior do que a da última década.

O debate a respeito da lei Glass-Steagall nos interessa no Brasil por ser o correlato, nos países chamados desenvolvidos, do que aqui buscamos com o nome de Auditoria Cidadã da Dívida. Não são projetos iguais, mas com efeitos quase idênticos. Quais sejam: o direcionamento do crédito público para projetos de desenvolvimento nacional, na economia produtiva, ao arrepio das exigências do mercado financeiro. Somente investindo na criação de novos postos de trabalho e em ciência e tecnologia, tanto na América do Sul quanto na Europa ou EUA, poderemos sair da crise. Em qualquer um dos países que sofre seu efeito, se a contestação da dívida for acompanhada, como fez Roosevelt, por uma Comissão Pecora, para investigar as atividades criminais do sistema financeiro, teremos de fato uma mudança de paradigma e conseguiremos redirecionar o moralismo difuso que assola o sul e o norte atualmente, todos baseados no “perigo vermelho”, seja de russos ou petistas.

O colapso econômico generalizado e o sistema anti-imperialista

O gráfico acima foi elaborado por Lyndon LaRouche ainda na década de 1980. Os agregados monetários representam a quantidade de dinheiro, papel moeda, em circulação; os agregados financeiros são os inumeráveis tipos de contratos futuros, securitizações ou derivativos; abaixo da linha horizontal, a descendente taxa de investimento em infraestrutura, em educação, ciência e tecnologia. Com isso, ele ilustra seu conceito de neguentropia: ao contrário do colapso financeiro inevitável caso seguirmos as diretrizes do mercado, ou seja, da entropia do sistema físico de toda a economia, a função da criação de um sistema de crédito baseado no modelo de Alexander Hamilton leva ao aumento da densidade de fluxo energético, per capita e por quilômetro quadrado. Um exemplo de salta econômico qualitativo é o desenvolvimento da energia de fusão nuclear, capaz de produzir energia suficiente para transformar em plasma qualquer material, usando para tanto pouquíssima matéria-prima. No caso, a fusão do deutério com o hélio-3. Este é encontrado de maneira abundante na lua, porque lá não existe atmosfera e as partículas solares não são quebradas e transformadas em hélio-2 como na Terra. O desenvolvimento da energia de fusão tem como correlato o investimento no programa espacial. Sem o Projeto Apolo, por exemplo, não teríamos os tratamentos em medicina nuclear ou os sistema de microcondutores que levaram ao desenvolvimento da informática, além de boa parte dos sistemas de comunicação hoje existentes. As tecnologias desenvolvidas na esteira do Projeto Apolo fundamentam boa parte das inovações hoje existentes. Não foi o caso de somente ir recolher pedras na lua (pedras hoje que são vistas com ambição pelos chineses por estarem impregnadas de hélio-3), mas um projeto similar aos Descobrimentos e que deve ser continuado[16]. Não por acaso, a descontinuidade desse projeto é  cronologicamente simultâneo a queda de investimentos na energia de fusão e nos programas espacias, ou seja, da década de 1970 a 1980, o que as faz coincidir também com o desmantelamento do sistema original de Bretton Woods, tal como elaborado por Roosevelt: o início da supremacia do dólar depois da crise do petróleo e da criação do grupo Inter-Alpha, ou seja, do modelo de cassino especulativo centrado em Wall Street e na City de Londres.

No preâmbulo ao projeto de lei para reinstaurar o banco nacional original dos Estados Unidos – hoje debatida no Congresso americano com diferentes versões –  fica assim definido o que é o sistema monetarista de origem britânica e o sistema de crédito, anti-imperialista, de Alexander Hamilton:

 

O monetarismo constantemente olha para trás com o anseio de monetizar os resultados da produção passada, ao invés de criar novas riquezas. O sistema de crédito se baseia na confiança no futuro. Ao invés de depender da produção passada ou estocar os bens, cria riquezas ao atar a futura realização dos projetos, e a produção de bens e manufaturas, à promessa original. A moeda do monetarismo é formada pela reconversão dos bens presentes em dinheiro. No sistema de crédito, ao invés dos produtos do crescimento, o crescimento em si mesmo é a moeda.

O monetarismo vê o débito como um fardo a ser deposto, e exige seu pagamento no presente, sem se importar com os custos futuros e os desperdícios do passado. Dentro do sistema de crédito, os débitos não são objetos auto-evidentes; a ação que gera valor através do processo de sua extinção é incluída em sua criação.

O monetarismo mede todo o valor pelo capital e trabalho, e dá ao dinheiro um valor auto-evidente. No sistema de crédito, a medida de valor não é o capital ou o dinheiro, mas os poderes mentais que desenvolvem os poderes produtivos do trabalho, os quais, por sua vez, ampliam o rendimento da produtividade, aumentando assim o valor dos bens, do trabalho, e do capital. Consequentemente, a produtividade é a medida de valor do capital. Com o aumento da produtividade, o custo da produção diminui, e o valor da moeda aumenta.

O dinheiro pode ser convertido em capital e em bens, mas o crédito, embora em si não seja capital, amplia a eficiência do capital. O crédito faz com que a mesma quantidade de capital ou trabalho seja mais eficiente e produtiva, e é a causa que acelera a criação de riquezas, com um potencial que o torna envolvente em toda produção existente de capital em todos os tempos, e que o coloca em ação. O valor das economias nacionais é, portanto, definido pela organização das relações entre o capital atual e o potencial promovido através do crédito.

Assim, o sistema de crédito vê a economia em sua totalidade como um sistema produtivo, e seu desejo fundamental é desenvolver amplamente a máxima eficiência e os poderes produtivos do trabalho através do investimento no progresso tecnológico. Isso é expresso na forma duma concordância entre as leis dos representantes do povo, e o desenvolvimento dos recursos e da indústria desse povo, definindo um paradigma por fora dos axiomas impostos e das regras do monetarismo[17].

 

Dois paradigmas devem ser desconsiderados aqui: o primeiro é o da teoria cíclica de acumulação e posterior crise do sistema capitalista. Como se crises econômicas necessariamente devessem ocorrer. São endógenas ao sistema na medida em que pertencem às fabulações monetaristas, ou seja, em determinados momentos da história, como na crise 1929 ou agora, há uma grande transferência de capitais para grandes corporações. Em 29, JP Morgan entre outros foram beneficiados da crise, saindo dela muito mais ricos do que já eram. Assim, houve aglutinação de recursos suficientes para se financiar o projeto de Hitler na Alemanha que, além do apoio dos banqueiros europeus e norte-americanos, contou com o perdão das dívidas do pós-guerra, pela protelação ao infinito delas, o que, sempre de propósito, permitiu a montagem do Estado nazista[18]. Não há crises “naturais” ao sistema. O monetarismo é um sistema entrópico. O outro paradigma é sobre a criação de novas dívidas. Não há problema algum em criá-las. É condição fundamental de um Estado-nacional soberano ser senhor de sua moeda e poder emiti-la para o desenvolvimento de seu país. Um país com um grande recurso de crédito voltado para a industria, o desenvolvimento tecnológico e a construção de novas redes de infraestrutura cria riquezas de maneira exponencial, produz muito além do necessário, diminui a carestia e aumenta a qualidade de vida de seus cidadãos. Sem esse tipo de dívida, ou seja, de crédito, não há desenvolvimento nacional. A isso se chama um sistema neguentrópico, como elaborado por Lyndon LaRouche, e resumido em suas Quatro Leis: O progresso somente existe sob um aumento progressivo, contínuo, dos poderes produtivos e correlatos da espécie humana. Esse progresso define a distinção absoluta da espécie humana sobre todas as outras conhecidas por nós. Um governo da população baseado nas políticas de ”crescimento-zero da população e dos padrões da vida humana per capita” é uma abominação moral, e na prática[19]”.

Sem conseguir reativar um sistema de crédito, o governo de Donald Trump está fadado ao fracasso. As eleições em 2018 para os cargos legislativos prometem uma campanha insidiosa contra o presidente. Caso ele saia derrotado da disputa, as chances de impeachment ou dele simplesmente sucumbir ao establishment são muito grandes. No dia seguinte à posse de Trump na Casa Branca, o jornal britânico The Spectator colocou em sua capa a seguinte manchete: “Donald Trump será assassinado, derrubado por um golpe ou só sofrerá um impeachment?”. O The Times londrino igualmente faz campanha desde a vitória de Trump por seu impeachment. A campanha neomacartista chamada “russiangate” perde força atualmente no país devido a ausência absoluta de provas sobre uma suposta “colisão” ou manipulação russa nas eleições americanas. Segundo Roger Stone, filho do cineasta Oliver Stone, o plano B do “deep state” é tentar removê-lo do cargo usando a vigésima quinta emenda constitucional, ou seja, provando a insanidade do ocupante do cargo máximo do executivo federal[20]. Campanha já iniciada com a publicação do livro de Michael Wolff, Fogo e Fúria, que questiona do início ao fim a saúde mental de Trump. O plano C seria simplesmente matá-lo. Porém, devido às dificuldades que o próprio presidente enfrenta, pode-se conceber um plano em que ele simplesmente sucumbe ao lobby de seus oposicionistas e, talvez para não morrer ou ser apeado do cargo, passe a fazer o seu jogo. Há precedentes. Podemos lembrar do bombardeamento da Síria em abril do ano passado, ato temerário por ter sido ato exclusivo do presidente, sem qualquer aval do Congresso, e um ato de guerra direto contra um país soberano. Russos e sírios até amenizaram o susto provocado pela ação intempestiva dizendo que as instalações afetadas pelo bombardeio eram secundárias, muitas desativadas. Amenizaram por acreditarem em algum tipo de diálogo com Trump (nunca com Hillary), algo que tem sido concretizado progressivamente até agora. Sua retórica bélica contra a Coreia do Norte foi logo “amenizada” pela declaração do presidente da Coreia do Sul de que, sem Trump, não se restabeleceria o diálogo entre esses países tendo como objetivo as Olimpíadas de Inverno. Seus movimentos a favor de Israel ou das monarquias do Golfo Pérsico igualmente falam contra o atual presidente. Financiadores do terrorismo na região, precisam do apoio dos EUA para manter sua política de morte, extermínio e subjugação das nações vizinhas. Trump parece se mover por sobre uma linha muito fina. Qualquer passo em falso não será um perigo para seu país, mas para a humanidade inteira.

Conclusão: águas turvas, horizonte nebuloso

É sintomático sobre esse assunto o artigo publicado recentemente no The Guardian[21] sobre supostos “jogos disruptivos”, ou seja, uma aliança entre o que se chama de “libertários” e “autocratas”. Assange apoiando Trump (“Russiangate”), Snowden (nem tão “pró-russo” – que, no mínimo, é uma afirmativa ambígua…) contra a União Europeia. Qualquer crítica à Troika, ao governo de Bruxelas, é chamado pela imprensa ocidental de autocrática, uma espécie de nacionalismo primitivo. Independente de onde vem essas críticas (porque são de grupos políticos bem diferentes, com propósitos não semelhantes), o fato de um país poder dispor novamente do poder sobre sua moeda nacional, sobre a criação de crédito em seu país e sobre a fuga do incrível sistema de austeridade e dívidas criado na Europa, passa por radicalismo, “autocracia”. Os críticos “liberais” só enxergam a Frente Nacional francesa e outros movimentos historicamente reacionários. Por que não se nomeia o alemão Büso? Não existe capacidade intelectual para além da que os faz construir sua retórica beligerante para debater com um partido europeu realmente progressista.

Macron não deixa de ser um fenômeno de “autocracia” caso olhado sob determinados aspectos. Quer fazer valer uma lei da mordaça na internet, aproveitando os “fake news”, nomenclatura fajuta criada na esteira da eleição de Donald Trump. Fake news quer dizer “colisão” russa nas eleições americanas, seja por supostamente terem hackeado os arquivos do Partido Democrata, seja pela presença de mercenários pagos por Putin na internet (a nova acusação). Agentes asiáticos influindo na política ocidental, ameaçando suas supostas liberdades… Mas Macron é um “europeísta”, entusiasta do governo de Bruxelas e de sua política xenófaba em relação aos imigrantes e de extermínio econômico para a população local. Inimigo do suposto “eixo do terror” inaugurado por Bush e Dick Cheney e simpático do “direito de proteger”, das intervenções humanitárias como nomeadas por Tony Blair. Contudo, mesmo por que esses últimos motivos não o caracterizem como um autocrata – muito pelo contrário –, está longe do paraíso do livre-mercado instituído na Europa desde o Tratado e Maastricht ao de Lisboa[22] quando nacionaliza empresas estrangeiras[23], não tão distante também do que a Inglaterra pretende fazer após o Brexit[24]. Nesse caso, podemos compará-lo a um típico “ditador sul-americano”? Ainda mais com leis para acabar com a sagrada “liberdade de expressão” (dos mais ricos, sempre)? De um lado, tenta se proteger contra um suposto  avanço chinês por sobre uma Europa quebrada economicamente. De outro, se reúne em Xian, cidade símbolo da Rota da Seda, onde ela começou sua expansão para o ocidente, para tratar de investimentos chineses na França e fazer acordos na área de energia nuclear[25]. É uma mudança de postura significativa. Caso olharmos dentro dos quadros da “nova Guerra Fria”, é um salto adiante. Por outro lado, interesses comerciais podem não traduzir os interesses nacionais, muito menos os da humanidade como um todo. Para Macron, refazer o projeto de integração euroasiática como fez seu conterrâneo Gabriel Hanotaux, ele deve galgar ainda muitos degraus. No mais, a China acaba por colocar um ponto de interrogação mesmo nas análises mais racionais.

Por fim, a situação do Deutsche Bank, que é um caso à parte. Agora ele é acusado de ter provocado a crise financeira, bancária, italiana em 2011. Como detentor de muitos dos títulos da dívida italianos (muitos deles comprados dias antes da saída do relatório que faria cairem as bolsas de valores do país), operou uma venda massiva desses títulos no mercado de ações com o beneplácido de Merkel e Sarkozy, que proibiram os italianos de se socorrerem com os habituais resgates financeiros (bail-out). Saiu o primeiro-ministro eleito com as normas democráticas do país e entrou Mario Monti, outro europeísta, atlantista, a ditar as normas de uma moeda que é na prática um modelo único de se governar[26]. Mas os chamados “no-performing loans”, débitos sem chance de serem creditados, não é uma realidade da Itália e só. Na verdade, muitos dos bancos hoje são chamados de “bancos zumbis”, por sobreviverem apenas de resgates estatais convertidos em mais dívidas em derivativos, ou seja, cuja existência física é praticamente nula. De fato, a dívida do Deustch Banck está ao redor de 55 trilhões, enquanto o PIB alemão chega a 4 trilhões e o PIB europeu a 18[27]. Todos os agentes de mercado nunca irão dizer que seu sistema irá falir miseravelmente, num movimento de colapso ainda pior que o de 2007. No primeiro dia de agosto deste ano, oito dias antes da quebradeira começar, Josef Ackermann, então diretor do Deutsche Bank, disse: “Depois de um excelente primeiro trimestre, tivemos outro resultado trimestral invejável, com ganhos significativamente maiores que no mesmo período do ano passado. Logo, tivemos muito fortes durante a primeira metade do ano, demonstrando claramente o poder e a resiliência de nosso programa[28]”.

Da mesma forma que a qualquer momento pode acontecer um outro “boom” financeiro, talvez outro ainda mais sinistro se avizinhe. Com a campanha neomacartista tomando conta dos Estados Unidos e pressionando o próprio presidente a agir a respeito, caso não sofra impeachment ou seja apeado do cargo por “insanidade mental” pela vigésima quinta ementa constitucional (principalmente depois das eleições de 2018), o plano C atrás mencionado pode não ser sua morte, mas sua capitulação. Caso sucumba às chantagens do “deep state”, a nova Guerra Fria pode de fato ficar muito quente. Como demonstra o falso alarme no Havaí em janeiro deste ano, o lançamento de um artefato nuclear pode ser provocado de maneira muito simples. De acordo com Wllim J. Perry[29], ex-Secretário de Estado americano, o incidente não foi um acaso, e pode muito bem ter sido intencional, aumentando ainda mais o clima de Guerra Fria vivido no ocidente. Intencional parece também a tentativa de assassinato do ex-agente russo expatriado na Inglaterra. É com muita rapidez que se culpa aos russos, tão rápido quanto se faz com Assad em relação a armas químicas: nenhuma investigação, mas palavras condenatórias de oficiais ou mesmo de chefes de Estado, ou seja, matérias para capas de jornais. O pronunciamento de Theresa May culpando Putin é de um anacronismo espantoso. Nada acontece por acaso, ainda mais dias após a Rússia ter anunciado um novo sistema de defesa com ares de ficção científica[30], mas que se baseiam num único princípio: seus mísseis não são balísticos. Isso quer dizer que pode superar qualquer míssil atual, principalmente os dos escudos anti-balísticos da OTAN espalhados por toda fronteira russa.

Nesse contexto, a expansão da OTAN para as fronteiras da Rússia, realizada de maneira acintosa depois da primavera colorida na Ucrânia, em 2014, e a recusa por parte dos EUA, em 2002 de continuar a desenvolver em conjunto com os russos os tratados ABM, se criou quase que uma situação de Crise dos Mísseis invertida. É só pensar que a mesma situação vivida pelos americanos na época de Kennedy é hoje vivida pelos russos. Porém não há Kennedys para criar uma negociação de alto nível, e sim uma histeria neomacartista sem tamanho, apesar de todos os esforços bilaterais feitos entre as duas potências nucleares[31]. Diante do avanço chinês com uma proposta econômica completamente diferente do liberalismo ocidental, duas ameaças nos rondam: o colapso econômico caso continue se seguindo as políticas de austeridade e o holocausto nuclear. Assim, o liberalismo nos propõe ou o genocídio lento e dramático, ou o rápido e horripilante. Curvas que em determinado momento podem se encontrar; só não sabemos em qual grau a destruição poderá vir. Nunca foi diferente na história desde que se erigiu pela primeira vez o Império Britânico.

 

NOTAS

[1]     Existem dois textos recentes publicados sobre o tema: um, o relatório da UNCTAD (http://brasildebate.com.br/nacoes-unidas-e-preciso-por-fim-a-austeridade-fiscal-para-reequilibrar-a-economia-mundial/) aponta para os empecilhos para a retomada do crescimento mundial por causa das medidas de austeridade econômicas e da profunda financeirização da economia nos últimos anos. Outro, o artigo de Clemente Ganz Lucio (http://brasildebate.com.br/reforma-trabalhista-no-brasil-e-no-mundo-nao-estamos-sos/) mostra que, albergados no falido sistema financeiro transatlântico, sob o manto do governo unipolar de Wall Street e da City de Londres, os cenários para os trabalhadores são os piores possíveis aqui no Brasil e no resto do mundo, incluive nos países chamados desenvolvidos. A reforma trabalhista não é mais uma “jaboticaba” nossa. Suas causas são as mesmas: financeirização e austeridade. A entrevista com Nomi Prins, relatada abaixo, fornece um quadro mais amplo sobre o significado dessas duas palavras-chave.

[2]     Nomi Prins: Financial System Worst now than in 2007. Publicado no canal do You Tube, LaRouchepac Videos, em 19 de março de 2017. A entrevista também pode ser lida na edição de 24 de março de 2017 da Executive Intelligence Review: Interview with Nomi Prins: The coming bank panic. Mais abaixo a comentaremos com mais detalhes.

[3]  MARCATO, Marília Bassetti. A política comercial de Trump: a escalada da ignorância. Brasil Debate, 15 de março de 2018. http://brasildebate.com.br/a-politica-comercial-de-trump-a-escalada-da-ignorancia

[4]     ROSS, Jason. Case Study: New York. Executive Intelligence Review, 9 de junho de 2017.

[5]     ROBERTS, Bills. As Detroit goes, so goes the nation. Executive Intelligence Review, 28 de junho de 2013.

[6]     STEINBERG, Jeffrey. How Obama created an opioid epidemic. Executive Intelligence Review, 4 de novembro de 2016.

[7]     Quando Nicolas Biddle criou o segundo Banco Nacional dos EUA, seguindo as diretrizes econômicas de Alexander Hamilton, assassinado por um agente da facção que criou o Partido Democrata para combater as políticas de George Washington e de seu Secretário do Tesouro, os EUA não eram apenas protecionistas “para dentro”. Não só impediam as importações para resguardar a indústria nacional, como restringiam as exportações para não inundar sua economia com ouro, o padrão monetário do Império Britânico. Não era só uma questão de “defender o dólar”, moeda que ainda estava por se firmar, mas de defender o sistema de crédito hamiltoniano contra o sistema de usura dos britânicos. Não por outro motivo, Jefferson, como escravocrata, criou a cisão, e deu a legitimidade para o que ficou conhecido como “democracia jeffersoniana”, ou seja, algo distante de Roosevelt ou mesmo Kennedy que entraram no partido em outra época, num momento de esclerose dos republicanos sentida desde o assassinato de William McKinley, o último presidente republicano associado às políticas anti-imperialistas de Abraham Lincoln. No mais, o que se assiste há décadas no país é a promiscuidade entre repulicanos e democratas, ou seja, a ausência de referências de diferenciação reais entre as duas agremiações, indistinção que fez uma figura como Henry Kissinger ser um quase rei no país ou permite, hoje, as afinidades indecorosas entre Clinton ou Obama com John McCain. No site http://www.larouchepub.com podem ser encontrados os escritos de Michael Kirsch, que fez excelente trabalho de atualização e de aprimoramento das pesquisas iniciais sobre o sistema americano de economia política realizadas por Anton Chaitkin, na década de 1980, e reunidas em seu livro Treason in America.

[8]     ROSENBLATT, Stuart. The real Victoria Nuland: flick for the British Empire. Executive Intelligence Review, 14 de março de 2014.

[9]     Podemos colocar como exemplos aqui o general Michael Flynn, um dos maiores críticos da política de Obama no Oriente Médio desde que fez seu trabalho por lá, Ray McGovern, agente veterano da CIA e que, junto a sua organização, a VIPS (Veteran Intelligent Profissionals for Sanity), tem ajudado a desmontar a farsa do “russiangate”, como também o caso emblemático do professor emérito de Princeton e da New York University, Stephen Cohen, democrata histórico que, em seu trabalho em prol de uma política de Détente entre EUA e Rússia, tem que se desculpar com seus aliados democratas e mostrar que a política desses, e não a de Trump, inevitavelmente levaria a uma conflito armado com a Rússia. Ele mantém um programa semanal com o radialista John Batchelor chamado The New Cold War, e seu trabalho pode ser visto no site criado por seu comitê de ação política, American Committee for East-West Accord: https://eastwestaccord.com. Não se esquecer que a mobilização política em torno de uma détente, da criação de mecanismos de crédito internacional fora do esquema FMI-Banco Mundial, e do que hoje é chamado iniciativa Um cinturão, uma rota são defendidos por Lyndon LaRouche e seus associados desde a década de 1980. Sua esposa, Helga Zepp-LaRouche, é chamada na China de “the New Silk Road Lady”, por estar há décadas nesse país trabalhando em prol desse projeto, inicialmente chamado de Eurasian Land-Bridge. Além do mais, entre os democratas ou apoiadores públicos desse partido, até Gleen Greenwald se posiciona atualmente de maneira veemente contra a histeria russofóbica nos EUA, claramente com temor de que a nova Guerra Fria fique de fato muito quente. Os últimos artigos do jornalista que acompanhou Edward Snowden quando vieram a público suas revelações sobre o sistema de espionagem internacional, são enfáticos a esse respeito. A situação é tão dramática que muitos que tem verdadeira alergia ao bufão Trump, contra um mal pior (e coloque pior nisso) acabem por defendê-lo diante de situação insustentáveis como as colocadas pelo ex-diretor do FBI Robert Muller. No mais, esse artigo antes coloca os dilemas econômicos enfrentados pelo governo Trump que, por sua vez, não corresponde ao ultraliberalismo da plataforma de Hillary e da plataforma democrata de um modo geral.

[10]   KOTEGAWA, Daisuke. Financial capitalism and the future. DOC Research Institute, 7 de dezembro de 2017.  https://doc-research.org/en/financial-capitalism-future/

[11]   Excerpets from Trump interview with The Time. Publicado em 28 de dezembro de 2017: https://www.nytimes.com/2017/12/28/us/politics/trump-interview-excerpts.html

[12]   LAROUCHE, Lyndon. How Bertrand Russell became an evil man. Publicado na edição de outubro de 1994 na revista Fidelio (Schiller Institute).

[13] Usei o termo “utópico” em referência chamada Doutrina Utópica da Otan (derivada do antigo MAD – Mutual Assurance Destruction), segundo a qual se poderia aniquilar o inimigo em poucos minutos, sem deixá-lo com capacidade de reagir – algo impensável num mundo com potência altamente nuclearizadas e prontas para contra-atacar.

[14]   BERNSTEIN, Leandra. Dodd-Frank kills: how the U.S. joined the international bail-in regime. Executive Intelligence Review, 31 de maio de 2013.

[15]   Nomi Prins: Financial System Worst now than in 2007. Citado acima, nota 2.

[16]   Hans Mark, um dos diretores da NASA durante o Projeto Apolo disse numa ocasião que, enquanto ajudava nos trabalhos de pioneirismo espacial, “sentia a sombra do Infante Dom Henrique” próximo a ele. A conquista do espaço junto ao desenvolvimento de fontes energéticas eficientes para levar a cabo tais projetos é como se criar um novo Renascimento. No caso, como ilustrado com a alusão a um dos pioneiros dos Descobrimentos marítimos no século XV. Ver: RUSH, Timothy. Henry the Navigator and the Apollo Project that lauched Columbus. 21 st Science & Technology, verão de 1992.

[17]   KIRSCH, Michael. Projeto de lei para restaurar o Banco dos Estados Unidos original. Tradução: Rogério Reis C. Mattos. Disponível em: http://portugues.larouchepub.com/outrosartigos/2013/0925-restore-national-bank.html

[18]   Ver O oculto, Hitler e Wall Street  link

[19]   LAROUCHE, Lyndon. As quatro leis para salvar os Estados Unidos, já! Tradução: Rogério Reis C. Mattos. Disponível em: http://portugues.larouchepub.com/lhltextos/2016/1214-4laws.html

[20]   DURDEN, Tyler. Deep States Plan ‘C’ – Murder Donald Trump?. Zero Hedge, 01 de janeiro de 2018. https://www.zerohedge.com/news/2018-01-03/deep-states-plan-c-murder-donald-trump

[21]   BORGER, Julien. Disruption games: why are libertarians lining up with autocrats to undermine democracy? The Guardian, 19 de novembro de 2017. https://www.theguardian.com/technology/2017/nov/19/trump-russia-fake-news-libertarians-autocrats-democracy

[22]   ZEPP-LAROUCHE, Helga. Existe vida depois do euro! Em: http://portugues.larouchepub.com/outrosartigos/2012/0924_life_after_euro.html

[23]   Macron and allies head for EU clash on foreign takeovers. Financial Times, 15 de junho de 2017. https://www.ft.com/content/73aadc3a-5118-11e7-bfb8-997009366969

[24]   O curioso da “solução britânica” é não comprar as empresas privatizadas depois da onda neoliberal da década de 1980. Pretender fazer uma espécie de administração participativa, onde essas empresas teriam que visar fornecer bons serviços ao invés de priorizar dividir lucros e dividendos com seus acionistas. Parece piada! É como se, para estatizar uma empresa ou semi-estatizar, se tivesse que construir uma espécie de agência reguladora para controlar suas práticas. Caso dê certo, será caso único na história universal que um organismo desse conseguiu fazer com que uma empresa privatizada prestasse um bom serviço público. O cinismo não tem fim, ainda que valha, talvez, a intenção de alguns de voltar a determinados marcos legais anteriores à avalanche neoliberal. Ver: MILENA, Lilian. Britânicos querem reestatizar empresas. Jornal GGN, 14 de janeiro de 2018. https://jornalggn.com.br/noticia/britanicos-querem-reestatizar-empresas

[25]   EIR Daily Alert Service, 10 de janeiro de 2018.

[26]   Deutsche Bank Investigated for Destabilizing Italy in 2011. Disponível em https://www.larouchepub.com/pr/2017/171212_deutsche_bank.html

[27]   ZEPP-LAROUCHE, Helga. Helga Zepp-LaRouche aresses a world in crises. Executive Intelligence Review, 26 de julho de 2016.

[28]   DURDEN, Tyler. The Big German Zombie. Zero Hedge, 02 de junho de 2018. https://www.zerohedge.com/news/2018-02-05/big-german-zombie

[29]   PERRY, William. The Terrifying Lessons of Hawaii’s Botched Missile Alert. 15 de janeiro de 2018, Politico Magazine. https://www.politico.com/magazine/story/2018/01/15/the-terrifying-lessons-of-hawaiis-botched-missile-alert-216325

[30]  ZEPP-LAROUCHE, Helga. Putin dá um novo choque “Sputnik”: Eles agora terão de nos ouvir. Executive Intelligence Review, 5 de março de 2018. Disponível em: http://portugues.larouchepub.com/hzl/2018/0308-sputnik_shock.html

[31]   EIR Intelligence Team. Defying the British Coup: Trump negotiates with Russia to solve the crises. Executive Intelligence Review, 09 de fevereiro de 2018.

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